Por ter crescido numa pequena localidade, que não era carne nem peixe - chamavam-lhe, nesses idos de 80, Centro Urbano -, acabei, eu e os da minha criação, por não ter acesso a tudo o que nos devia acontecer. Por exemplo, só tive Educação Física do 1.º e no 2.º ano do Ciclo Preparatório e no 8.º ano do Secundário. As aulas do 8.º ano até eram giras, porque aconteciam num pavilhão ainda distante da escola e o caminho de ida-e-volta era sempre preenchido por aquelas parvoíces saltitantes que um bom grupo de adolescentes com rédea mais-ou-menos solta espalha à sua volta. A professora era um ser anódino que só recordo ser baixo e magro.
Já no Ciclo, no 2.º ano, a conversa era outra. Tínhamos sempre aulas no ginásio da escola, que era o ginásio onde eu treinava judo também, no final de algumas tardes da semana. Que eu me lembre, com excepção de mim, todas as outras meninas da turma, em vez do judo, tinham ginástica com a professora de Educação Física, a Professora Amélia. E a Professora Amélia fazia-me a vida negra porque eu, para além de nunca me ter achado particularmente dotada para aquelas mariquices das cambalhotas e dos pinos e das pontes, não compactuava com os assombros de graciosidade e cadência das outras discípulas. Durante anos, sempre que dava uma cambalhota, lá ouvia a malévola Professora Amélia a dizer que eu parecia um saco de batatas; até hoje, nunca mais tentei um pino; as pontes, aprendi-as há um par de anos, quando fiz yoga , porque ela nem me deixava tentar em condições (na altura, agradeci de cada vez que o fez).
Passados muitos anos e, se bem que não cisne, mas para trás deixado o patinho feio, lembro-me sempre com um sorriso da Professora Amélia, quando, no ginásio, me elogiam o rigor nos exercícios e a pulsão enérgica do treino.
Freud devia ter pensado na influência maligna que podem ter as professoras velhacas de Educação Física na auto-estima das marias-rapaz e a Professora Amélia devia um dia, por acaso, ler este post e reformar-se ligeiramente deprimida.