February 14, 2012

mas depois

Passa-se a mão por cima. Assim como a insinuar que se procura pó no friso de uma lareira. E deixamo-nos ficar mais um pouco. Sentamo-nos na cadeira, cruzamos a perna e voltamos a medir o espaço e os intervalos desse espaço e o ar que o circunda nesse espaço e que, ora pesando, ora ficando mais leve, preenche o vazio, tenha ele o tamanho que tiver.

tentações

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February 13, 2012

não é o amor que é um lugar estranho

Somos nós.

sombras (excertos em contexto)

O passado não está ainda pronto para nós,
nem o futuro: é certo que
temos um corpo, mas é um corpo inerte,
feito mais de coisas como esperança e desejo,
do que de carne, sangue e nervos

in Separação do corpo



espaços em negro

Vim de lá agora, fui olhar pela desarrumação das lombadas. Sabes, nisso os objectos são melhores que as pessoas, nisso de não nos sentirem o peso, quer dizer, as cadeiras e as escadas e as balanças até sentem, mas tu sabes que não era desse peso que eu falava. Lês um livro e nada do que sentes o importuna. Debulhas-te em lágrimas no rodado de um disco e o disco nem dá por ti. Mas então as lombadas: estive a ver como se dispõem as cores, não sendo esse o critério desorganizativo que as alinha, e constatei que é mais fácil encontrá-las e lembrarmo-nos delas dessa forma. Se um dia deixarem espaços em negro, podemos olhá-los (aos espaços) com a memória das cores e passar tempo a fazer isso. Como passa tempo, a memória das cores transforma-se na memória das palavras, e a memória das palavras, quando se alinha em lombadas, transforma-se na memória dos dias.

E os dias depois passam. Como a tristeza no outro post.

ainda ao sol (excertos em contexto)

Cá fora à luz sem véu do dia duro
Sem os espelhos vi que estava nua
E ao descampado se chamava tempo

in Para atravessar contigo o deserto do mundo

exercícios posturais

De como se torna essencial mantermo-nos debaixo do sol para conjurar o frio que não faz cerimónias para se insinuar em nós.

October 18, 2011

o retorno

Os outros maridos do bairro não traziam coisas do trabalho ou traziam porcarias como o da D. Alzira, que interesse pode ter tantos cinzeiros com o emblema da Cuca ou o resto de fazendas que o marido da D. Gilda que trabalhava na Gajajeira trazia, nem para panos de cozinha davam, era o mesmo que não trazerem nada. O pai trazia coisas boas dos navios estrangeiros, levava os camiões carregados de café e trazia-nos coisas tão boas que a mãe deixava de ser a D. Glória que tinha problemas e passava a D. Glória que tinha os seus problemas, o que era completamente diferente de ter problemas, toda a gente tem os seus problemas, mesmo as vizinhas. A mãe mostrava os perfumes franceses e as vizinhas, tem de pôr só umas gotinhas de cada vez, a mãe não as ouvia e encharcava-se com perfume francês, um cheiro tão forte que nos dava tosse e nos punha tontos, ainda bem que os perfumes franceses eram pequeninos e se gastavam depressa. O pior era que quando a mãe voltava a cheirar a água-de-colónia Si Fraîche como todas as vizinhas passava a ser outra vez a D. Glória que tinha problemas ou mesmo a D. Glória que tinha aqueles problemas.

Dulce Maria Cardoso, O Retorno (Tinta-da-China, 2011)

October 15, 2011

cookie monster

daqui

"Não sinto que tenha de pedir desculpa aos portugueses"

A propósito da primeira página do Expresso de hoje, não posso deixar de explicar ao sr. primeiro-ministro:

Eu trabalho. Trabalho muito. Nem sempre com vontade, mas trabalho. Muito.
Eu não tenho outro remédio senão pagar os meus impostos, porque tenho o privilégio de trabalhar por conta de outrem. Sou paga com dinheiro do orçamento geral do estado. Mas não me sinto em dívida.
Eu pago as taxas e as contribuições. As que, mais uma vez, não tenho outro remédio senão pagar. Mas as outras também. A tempo. E não estrebucho.
Eu consumo. Faço mexer a economia.
Eu, sem contar com o corte no próximo subsídio de natal e sem pensar no que mais gasto quando consumo, ganho menos 150€ que no ano passado. Desde Janeiro. É só fazer as contas.
Eu gerei um nadinha menos que o 1,3 filhos da média portuguesa, portanto estou apenas ligeiramente abaixo da média.
Eu voto. Sempre. Mesmo quando dói.
Eu não votei, nem nunca votaria em si ou em pessoas que pensam a sociedade como o senhor pensa.
Eu já vai para uns 30 anos que não acredito que, se nos sentarmos sempre na cadeira em frente ao professor, apagarmos sempre o quadro e levarmos o livro dos sumários para a sala dos professores, passamos de ano de certezinha.

Portanto, não que me tivesse ocorrido a necessidade, mas, já que fala nisso, a mim sim, tem de pedir desculpa.

September 11, 2011

9/11x10

NYC-06/2009

Estava, como em quase todos os anos por esta altura, de férias. Evito olimpicamente o Agosto, até porque há menos trânsito em Lisboa, menos colegas, menos chefes, logo, menos stress de última hora (sobretudo dos inventados - as chefias intermédias são especialistas nesses). Depois, os lugares de veraneio estão como se sabe, praias com tanto convívio que parece intimidade e restaurantes com falta de mesas e futuros desempregados sobrecarregados e mal-dispostos.

Tinha ido buscar as minhas avós para almoçarmos junto ao mar, em São Torpes. A minha avó Dade ainda não tinha ficado doente e era ainda sempre a mais bonita do restaurante. A minha avó Mina espalhava o bom-humor com que fica sempre que recebe mimos. Escolhemos um restaurante que existe há uns anos, mas que tinha uma gerência nova, decoração smart-oceânica-zen e uma gerente conterrânea e vizinha da minha avó Mina.

O meu filho tinha um ano e nove meses e estava tranquilo no carrinho. A conterrânea da minha avó, chamada Mila, não parecia muito empenhada em dar-nos um atendimento pelo menos regular e o almoço poderia ter-se tornado desagradável, não fosse estarmos todos embalados pelo Verão, generoso nesse dia. Para tornar tudo numa experiência ainda mais limite, a Mila, quando finalmente veio recolher o pedido, começou a brincar daquela forma muito entendida que algumas pessoas adoptam com as crianças, e acabou por me atirar com o puto ao chão - ainda hoje acreditamos que ele é assim espalha-brasas por causa daquela queda.


Já nas sobremesas tocou-me o telemóvel. Ligavam do trabalho, a minha colega Catarina (que entretanto se mudou de malas e bagagens para o lado negro da força) a perguntar se já sabia o que tinha acontecido e se percebia do que se tratava. Estavam todos a não trabalhar, a ver a televisão da copa e era inacreditável, garantiu-me então. Prometi que lhe ligava quando percebesse, mas acho que me esqueci.

Paguei, deixei as minhas avós nas suas casas e fui para a dos meus pais, a tempo de ver o embate do segundo avião. O meu pai recebeu-nos, naquele a correr de quem se levanta do sofá só mesmo para abrir a porta, e sentámo-nos os três, partilhando boquiabertos aquela imensidão de mundo, a cinza a entrar-nos pelas narinas, as pessoas a correr na nossa direcção, o fogo a queimar-nos as sobrancelhas, os suicídios de tão alto, os pedidos de ajuda aos quais não podíamos corresponder, a imaginação a nem conseguir funcionar porque o que estava a acontecer já era a imaginação toda.

Fomos todos espectadores bem-comportados do espectáculo que o terrorismo deu, as televisões todas oscilaram entre o imperioso informar e o grafismo excessivo, mas somos só pessoas e fazemos todos escolhas erradas. Há hectolitros de tinta e gigabites de largura de rede escritos a propósito, não vou ser eu a trazer novidades. Até porque a mim, o aumento da distância desse dia cinzento escuro e vermelho vem-me roubando objectividade e compostura e, como não consigo ver nada a propósito sem me debulhar em lágrimas, divido-me entre a curiosidade de estar presente neste aniversário macabro, em que uma parte do mundo parou sem nos deixar sair, e a leveza de me ausentar, tergiversando-o.

August 20, 2011

das dificuldades de viver em sociedade



É um parque de estacionamento. Numa praia. Faz hoje oito dias, na primeira linha, estavam quarenta e cinco auto-caravanas, quase todas solidariamente estacionadas de modo a permitir instalar a mesinha e o fogareirozinho. Do próprio e do vizinho. Conseguiram deixar os carros no espaço que os praticantes mais distraídos deixaram, vá, uns sete carros, se tanto. É tão irritante e tão pequenina esta cumplicidade entre pessoas que teriam tudo para não se suportar e se co-protegem só porque estão a fazer a mesma coisa.

Ainda há dias li um artigo na Visão, em que os adeptos da arte do autocaravanismo (sim, os mesmo que descarregam os químicos dos WC nos esgotos das cidades) se comiseravam sobre a falta de tolerância dos concidadãos e das autarquias para com esta nova forma de fazer férias. Espero que não estivessem a falar da Câmara Municipal de Sines, tão compreensiva tanto com os caravanistas, como com os utilizadores da duna para estacionarem os SUV e os TT.

Pela minha parte até entendo que se queira acordar à beira-mar, assar um robalito ou um pargo ao pôr-do-sol, demorar trinta segundos a ir à praia ou ser amigo da senhora das bolas-de-Berlim. Também pela mesma parte (a minha), alguém com juízo havia de limitar o estacionamento daqueles gigantes a umas horas por dia (ou noite), e traçar uns riscos no chão para não ocuparem o espaço de um hipermercado. Isto para o resto das pessoas também estacionarem, sem demorarem horas para o fazer e sem terem de expelir para o ambiente toda a gasolina que os autocaravanistas poupam nas suas longas estadias em contacto com a natureza.

É tão bonito fazer o bem à custa do gajo do lado, não é?

PS - Note-se que a praia nem se vê nas fotos. Podia ser o estacionamento de um outlet no Pombal ou em Vila Franca de Xira. E não é truque da artista. É impossibilidade física mesmo.

August 18, 2011

quotidianos contextualizados

Many forms of Government have been tried and will be tried in this world of sin and woe. No one pretends that democracy is perfect or all-wise. Indeed, it has been said that democracy is the worst form of government except all those other forms that have been tried from time to time.



Winston Churchill
       Speech in the House of Commons (1947-11-11)
       The Official Report, House of Commons (5th Series), 11 November 1947, vol. 444, cc. 206–07.

Wikiquote

August 14, 2011

a cidade dos livros


Depois da grande crise dos anos 10 e 20, pouco sobrou do mundo de antes. As distâncias voltaram a estender-se e o metabolismo do tempo desacelerou. Não era como nas décadas de trás, porque o mundo deixara de adolescer: havia dados adquiridos e questões prévias que já não eram ponto de agenda. Ainda assim, era um planeta mais lento que quando o século assomou.

Em 2032, a Internet tinha desaparecido de repente, sem aviso prévio para cópias de segurança.

Muitos perderam chão e anos de estados de alma, viúvos de milhares de caracteres, abandonados por um número infindo de registos e segredos. Surpreenderam-se todos sem saber o que fazer, esquecidos que estavam dos selos, dos postais, das horas ao telefone, do cheiro dos livros.

Sobraram então os livros. E os jornais, as revistas, as cartas, as filas dos bancos, os bancos de jardim, a memória dos jardins. Sobraram as bibliotecas e os quiosques. Borges escreveu que sempre imaginara que o paraíso devia ser algum tipo de biblioteca.

Alheias de propósitos orientados, as pessoas que começavam a fazer o mundo voltar a mexer, punham-no a ler. Fundavam-se bibliotecas de todo o tipo: de autores, de títulos, de especialidades, de desconhecidos de sempre, de laureados do mundo de antes. E, como já não existiam aviões, porque não havia combustível que os fizesse voar, o povo, que antes achava que a democracia era poder fazer tudo em todo o lado, depressa aprendeu que o que estava escrito desde que se escrevia e registava, o faria conhecer o mundo todo.

Em 2042, escassos meses depois da publicação da Declaração Mundial da Educação para a Participação, as Bibliotecas de Primeiras Frases deram sinal das suas (longas) vidas. De início, em escondidas e reduzidas secções de autores. Em breve, autonomizando-se, ao passo do empenho e da obstinação dos amantes da arte da escrita, que investiam em espaços com mais e melhores frases, quase sempre oferecidas por quem as gerara, a um universo cheio de vontade de as ressuscitar em novos vestires.

“Afirma Pereira tê-lo conhecido num dia de Verão.” 

“Sempre me lembro de ter ouvido o mar.”

“Alguém deve ter difamado Joseph K., pois que numa linda manhã foi preso sem ter cometido qualquer crime.”

”Mrs. Dalloway disse que ela própria iria comprar as flores.”

 “A porta da cela bateu atrás de Rubachov.”

Era uma vez um homem que vivia em Buenos Aires e estava muito contente porque era um homem são e trabalhador.

“Encontraria a Maga?”

E o senhor como se chama? Espere, tenho-o debaixo da língua.”

“A primeira vez que vi uma mulher tinha onze anos e me surpreendi ,  subitamente tão desarmado que desabei em lágrimas.”

Tantas frases que foram berço de novos romances e ensaios. Novos poemas.

A regra era singela e de tácito acordo: se o transvestir fosse belo, ficava o escrito como caso julgado e mais nenhum candidato lhe tomava as rédeas. Os autores originais, se fossem vivos e tivessem vontade, também votavam. Com o hábito que havia da sociedade global de antes, com o muscular saudável do participar, não havia projecto que não abrisse noticiários e ilustrasse páginas de jornais.

August 10, 2011

a pessoa está sempre a sofrer

Agora que eu tinha arranjado uma forma tão inteligente de racionalizar a minha obsessão por lavar constantemente as mãos e os pés no Verão, mudaram-me para um sítio sem bidé e com um lavatório de jardim de infância.

August 01, 2011

de companhia ao serão


Kanye West, Coachella 2011

labour

Passado que está o comboio dos bloggers que se tornam ministros, secretários de Estado, assessores e dirigentes da Administração pública, podem agora continuar os trabalhos de reabilitação, arrumação e higienização do blog.

Nunca gostei de trabalhos domésticos, mas confesso que, quando meto as mãos ao trabalho, meto qualquer fada-do-lar num armário de vassouras. Apertadinho.

difícil encontrar um dedinho tão certeiro


© Summaron

(esta um presentinho especial...)

Dois exemplos difíceis de seleccionar no melhor blog de maminhas que já nos passou pelo monitor.

suburbia

Se eu saísse desta casa, ainda que pusesse em segundo plano o pesadelo da logística da mudança, um dos momentos que me faria saudades seria precisamente este, em que o sol se põe nas costas do prédio, mas que se intromete por entre as nuvens e as reflecte nas janelas do último andar do prédio em frente, num refulgir branco e azul ou cinzento, que vai perdendo em brilho o que ganha em definição do contorno, até se tornar luz da noite.

July 17, 2011

apontamento

A exposição O Corpo Tem Mais Cotovelos, na Casa das Histórias.

Sempre terei medo de me confrontar fisicamente com a Paula Rêgo, por achar que ela iria ver através de mim, dos meus medos, dos meus fantasmas, dos meus segredos, das minhas idiossincrasias e iria pintar-me na sua cabeça com os deformados todos.

July 14, 2011

"um bom vício retira à morte a suposição"

Admiro os viciados. Num mundo em que está toda a gente à espera de uma catástrofe total e aleatória ou de uma doença súbita qualquer, o viciado tem o conforto de saber aquilo que quase de certeza estará à sua espera ao virar da esquina. Adquiriu algum controlo sobre o seu destino final e o vício faz com que a causa da sua morte não seja uma completa surpresa.
De certo modo, ser um viciado é uma coisa bastante proactivista. Um bom vício retira à morte a suposição. Existe mesmo uma coisa que é planear a tua fuga.

Chuck Palahniuk, in "Asfixia"

Elegantemente furtado num poiso antigo.

July 13, 2011

não sei

fazer uma data de coisas.

only an expert

Suponho que isto de não me aparecerem botões para todos os meus leitores poderem cobrir a internet com os fios da minha teia, tenha a ver com o facto de este template ter uma grande probabilidade de não ser costumizado... Terei de aferir.

July 12, 2011

mas estão mesmo a oferecer?...

Há dias...

Sejamos rigorosos que o evento não pede menos:

No dia 4, ou seja, na semana passada, cheguei a casa e não tinha televisão. Tinha internet, se calhar até tinha telefone, mas televisão, não. Pensei logo que já tinha feito asneira (eu sou uma pessoa que tende para a asneira fácil e que acredita que sua minha presença ou até a ausência podem dar confusão) e liguei para a linha do cliente da Zon. Nada, que tinham muitas solicitações e pediam para ligar mais tarde, isto já numa gravação. Mandei um sms à Susana, que também tem Zon. A Susana tinha televisão. Fui comer qualquer coisa naquela cozinha silenciosa. Liguei outra vez para a linha, ainda convicta de ter pressionado com a mente um botão errado. Já tinham outra gravação, esta a assumir a catástrofe, um sem número de localidades mantidas na ignorância ou pior. Paciente, desisti do projecto TV e fui ver do mundo pelas vias menos ligadas à culinária e aos afazeres domésticos.

Esquecida do que se tinha passado, recebo hoje, na caixa do correio (mesmo a do prédio, a física), uma carta da Zon (não um mail, mesmo uma carta, assim em papel) onde me pedem desculpa por me terem interrompido o serviço de televisão, internet e telefone. Mas pedem desculpa a bold e logo a seguir ao "Estimado cliente," ou seja, sentimento sincero. Prometem que desenvolvem esforços (esforços não, todos os esforços!) para que se não repita.

Já transbordante de felicidade por ter um fornecedor de serviços de acesso ao universo tão educado e empenhado, passo à segunda parte da missiva - já entremeada com uma lista de pontinhos - à espera de alguma desagradável e desnecessária publicidade. Longe disso. Oferecem-me um filme grátis no Zon videoclube. A lista dos pontinhos é para eu aprender a usar o filme e um código para o poder ver.

O mundo está a mudar e nem sempre é para pior?

um doce a quem não rir também

Video do dia: Comentários na Internet from Chico Buarque: Bastidores on Vimeo.

July 05, 2011

quase onomatopeias

"Through the window are apple trees, an old barn, the huge branches of a 200-year-old ash tree creaking gently in the wind."

FT

July 02, 2011

questões de princípio

não fazer diferença

sentar numa cadeira virada para o mar

estações de comboios

quase adormecer ao sol

não perder a lua cheia

ouvir

falar baixo

rir alto

contrabaixos

observar

não perder as outras luas

crescer

adivinhar as marés

calcorrear as cidades

flores pequeninas nos campos

caminhar praias

não esquecer as perseidas de Agosto

fumar

menos profundidade de campo

radiografias

demorar a ler

preferir não dizer

chorar no cinema

areia grossa

indecidir

rabiscar estrelas de David ao telefone

maçãs vermelhas

beijos nos ombros

cerejas rijas

não conseguir não dizer

sonhar acordada

fazer pinos no mar

mergulhar a fazer de bala

nadar nua

ser medricas

rabiscar claves de sol ao telefone

mãos

pés

coincidências

sonhar a dormir

arrepios de músicas

fingir que não conheço

utopias

não saber as horas

África

mar

cheirar

farófias e leite creme

lembrar que já passou

chuva morna

não perceber tarifários

rugas

esplanadas

sesta

manjericão e cebolinho

aeroportos pequenos

túlipas

antúrios

filmes de terror

cabelos brancos

sorrisos largos

canela

morder nos braços

sol de manhã

kompensan

ombros de gigantes

vento

partes de poemas

partes de prosas

partes de corpos

partes de corpos (1)

A pele serve de céu ao coração.

in O Céu, Luís Miguel Nava

June 03, 2011

quanto custam os vaidosos?

Andei eu anos a pensar que podia estar a ser incompetente e, afinal, era tudo uma questão de perspectiva (minha perspectiva, que tudo influenciava). Em boa verdade, podemos passar as sete horas do dia de trabalho a fazer merda que, se acreditarmos (ou fizermos acreditar) que estamos a disseminar a palavra do Senhor, não há chefe que não nos tome pelo Messias. My bad.

Este parágrafo de cima pode passar por desabafo, e sê-lo-à, numa primeira acepção (ou aceção, à letra de 1990), mas, em bom rigor, é uma pérola de sabedoria, testemunho observador de uma às vezes inconsciente sabedoria, de uma quase-destravada capacidade de manipular a realidade a nosso favor, de um talento que não encontro melhor expressão para nomear que dodge the bullets. Sobrevivência ao mais discreto e bem sucedido nível.

O mundo do trabalho está cheio de últimos moicanos, capazes de fazerem tábua rasa dos mais verificados factos da vida, instintiva e paulatinamente defendendo tudo o que vá contra o seu conforto, as suas horas na internet, o seu pequeno poder, os seus direitozinhos de pequeno chefe.

O dia (minuto, hora) depois, se soubermos olhar para ele a nosso favor, é sempre um dia melhor e a culpa é para os que acreditam que ela existe.

Abençoados sejam os que precisam, porque é deles a convicção de que reinam nos céus.

May 31, 2011

(não) temos pena

Ou então temos, mas nem parece.

Já se esgotou este modelo, esta coisa das campanhas eleitorais, com as agendas, as palavras de circunstância, as circunstâncias sem palavras, os pormenores sórdidos, as cores das gravatas, os assessores de imagem, a previsibilidade, os crops nas imagens famintas de parecerem muitas, os cronómetros a correr e ninguém a aprender, os planos adequados, a falta de imaginação de quem finge que dá, os formatos de durante e os disformes do depois, as sondagens cheias de números que oscilam num faz-de-conta diário e extenuante, o povo que ali está pelo movimento.

Às vezes ocorre-me que, numa linha de tempo, o que havia de humano nos humanos ficou lá, nos idos do século XX. Nos de 2000, tudo é como devia ser, todos sabem as regras ou que existem regras. No mundo convencional da política, não há jogadores fora de jogo e todos os jogos são longos e penosos prolongamentos, sempre iguais, sempre de acordo com as normas. Aqui o jantar é sopa todos os dias, tem cada vez menos legumes e este não é um eufemismo da crise.

Ou como li daqui, numa citação de Tiziano Terzani (Disse-me um Adivinho)

Todos nos devemos perguntar — e sempre — se aquilo que estamos a fazer melhora e enriquece a nossa existência. Ou será que, devido a qualquer deformação anormal, todos perdemos o instinto em relação àquilo que a vida deveria ser, ou seja, mais do que tudo um momento de felicidade?

May 30, 2011

EN MATILDE

A veces la gente no entiende la forma en que habla Matilde, pero a mí me parece muy clara.

—La oficina viene a las nueve —me dice— y por eso a las ocho y media mi departamento se me sale y la escalera me resbala rápido porque con los problemas del transporte no es fácil que la oficina llegue a tiempo. El ómnibus, por ejemplo, casi siempre el aire está vacío en la esquina, la calle pasa pronto porque yo la ayudo echándola atrás con los zapatos; por eso el tiempo no tiene que esperarme, siempre llego primero. Al final el desayuno se pone en fila para que el ómnibus abra la boca, se ve que le gusta saborearnos hasta el último. Igual que la oficina, con esa lengua cuadrada que va subiendo los bocados hasta el segundo y el tercer piso.

—Ah —digo yo, que soy tan elocuente.

—Por supuesto —dice Matilde—, los libros de contabilidad son lo peor, apenas me doy cuenta y ya salieron del cajón, la lapicera me salta a la mano y los números se apuran a ponérsele debajo, por más despacio que escriba siempre están ahí y la lapicera no se les escapa nunca. Le diré que todo eso me cansa bastante, de manera que siempre termino dejando que el ascensor me agarre (y le juro que no soy la única, muy al contrario), y me apuro a ir hacia la noche que a veces está muy lejos y no quiere venir. Menos mal que en el café de la esquina hay siempre algún sándwich que quiere metérseme en la mano, eso me da fuerzas para no pensar que después yo voy a ser el sándwich del ómnibus. Cuando el living de mi casa termina de empaquetarme y la ropa se va a las perchas y los cajones para dejarle el sitio a la bata de terciopelo que tanto me habrá estado esperando, la pobre, descubro que la cena le está diciendo algo a mi marido que se ha dejado atrapar por el sofá y las noticias que salen como bandadas de buitres del diario. En todo caso el arroz o la carne han tomado la delantera y no hay más que dejarlos entrar en las cacerolas, hasta que los platos deciden apoderarse de todo aunque poco les dura porque la comida termina siempre por subirse a nuestras bocas que entre tanto se han vaciado de las palabras atraídas por los oídos.

—Es toda una jornada —digo.

Matilde asiente; es tan buena que el asentimiento no tiene ninguna dificultad en habitarla, de ser feliz mientras está en Matilde.



Julio Cortázar, Papeles inesperados, Alfaguara, Madrid, 2009

April 07, 2011

economia my ass, é mesmo o dinheiro

Ninguém me tira a ideia que parte substancial disto tudo vem de a riqueza estar mal distribuída e de haver pessoas que têm mesmo muito dinheiro, outras nenhum e um molho de enrascados de permeio. Claro que o que eu digo não é relevante, porque sou daqueles seres imaginários que acredita que todos os trabalhos são igualmente importantes e que todos deviam ser pagos pelo mesmo. Porque o que eu faço é tão importante como o que faz o Fernando Ulrich, e nenhum de nós aguentava trabalhar muitos dias sem a senhora da limpeza do escritório vir pôr o gabinete aceitável ou sem o homem do lixo vir recolhê-lo. Provavelmente, andaríamos os dois às aranhas se os jornalistas não nos dessem as notícias ou se não tirássemos umas horas por semana para que alguém nos entretesse... Já para não falar de quando morrermos, se não houver que nos sepulte.

Criou-se foi esta ficção do merecimento, que existe apenas para justificar que uma mão-cheia de pessoas ganhe quantias astronómicas. Eu não tenho dúvidas que, num sistema justo e equilibrado, faria o que faço, como faço, ainda que ganhasse metade do que ganho, porque é o meu trabalho e porque aquele seria o meu dinheiro. Nem é a questão do ovo e da galinha, o mérito, como outros mecanismos capitalistas, foi sintetizado para justificar benesses e privilégios que, para além de terem feito sentar à sombra da bananeira muitos de quem os recebeu, escarrapacharam a humanidade de quem os atribuía, porque o ser humano, lá está, é humano, e não consegue considerar variantes exclusivamente objectivas, até porque não existem. Logo, devia aplicar-se a regra básica do "não sabe, não estraga".

É como se continuássemos todos a ser crianças e recebêssemos prendas quando saem as notas dos períodos escolares. Lamento informar que somos crescidos e não temos de ser recompensados porque fazemos o que temos de fazer, bem feito. Temos de trabalhar, fazer a nossa parte, com consciência de ser importante o contributo e viver o resto. Trabalhar, suponho eu, não será um desígnio natural do homem. É necessário. Faz-se.

Eu não acredito na capacidade de ninguém para avaliar o meu trabalho, tirando eu própria, porque sei o que escolho fazer e deixar para depois. Todos sabemos, querendo. Portanto, quando me perguntam, então o que fazias para resolver, eu não sei responder, porque, neste mundo, as cabeças estão todas formatadas: se são licenciados, não podem fazer limpezas, se são chefes, não fazem trabalho administrativo, se são intelectuais, não sabem utilizar as mãos. E todos, todos, mereciam mais e melhor. Só que isso de merecer só existe se se acreditar em deuses e os deuses não andam a fazer muita prova de vida.

December 01, 2010

a água já fica. só falta o pão.

PS quer deputados a beber água da torneira

Sabes o que estes gajos me fazem lembrar? Quando estamos a jogar sueca e o nosso parceiro está seco a um naipe e corta um Às ou uma manilha com um duque.

um caso de fé

Tenho certeza que alguém me há-de explicar quem está a pagar as viagens, os táxis, os jantares gourmet, os almoços sibaritas, o tabaco, os whiskys, as horas de "trabalho" e o resto dos penduricalhos dos 40 notáveis que estão em Zurique. Porque, claro, eu não faço parte da imensa minoria que acredita que o Mundial em Portugal não vai custar-me um tostão.

November 24, 2010

já ninguém sabe da chave do matadouro

No que à greve diz respeito, tenho vivido como o que suponho perfazer uma fatia generosa dos católicos: sou grevista não-praticante. E o que faz uma grevista não-praticante? Basicamente não faz nada, porque trabalha e porque pertence a um tipo de trabalhador que, se não trabalhar um dia, nada traz de mau ao mundo, uma peça da engrenagem, mas das pequeninas, daquelas muito fininhas que funcionam em conjunto com outras, importantes para que o sistema (teoricamente) funcione perfeitamente, mas não para que se mantenha em funcionamento. Num dia, parar ou ficar, vai dar ao mesmo. Não sou causa de paragem de cidades, portos, hospitais ou fábricas. Não lido com muitas pendências inadiáveis ou danosas quebras de produção. Sou quase tão insignificante como a maioria de nós. Mesmo considerando o(s) conjunto(s) a que pertenço.

Mas hoje, pela primeira vez, fiz greve. Não a fiz porque, a partir de Janeiro, me vão ficar com mais de um dia de vencimento. Nem para aproveitar e dar a ver ao chefe ver o que é bom para a tosse. Fi-la porque, desde há uns anos e em crescendo, na minha rotina laboral especialmente, e nas notícias do país em geral, venho notando o esforço que quem se deixa nomear para mandar, faz para não assumir as responsabilidades que são, indubitavelmente inerentes aos cargos que aceitaram. As normas, as regras e as leis, cada vez mais ininteligíveis, absurdamente longas e complexas, são o ponto de apoio de uma cultura geral de desresponsabilização e, como os exemplos vêm de cima, as chefias e dirigentes da administração pública seguem o air du temps, marcado pelo passo das figuras do Estado e do Governo, que atiram culpas para A Comunidade, para A Crise, para Os Mercados, para Os Especuladores, para A Alemanha, para A Grécia, para A Irlanda. Para O Que Calhar e nos faça esquecer actos e omissões.

Como um Estado violento que, por exemplo, professe e pratique a pena de morte, um Estado esbanjador gera cidadãos esbanjadores, um Estado que não assume os seus erros gera cidadãos irresponsáveis, um Estado que se deixa à mercê dos mais fortes com a justificação de ser tíbio, representa um país de cidadãos frouxos, sempre na disposição de terem quem cuide deles e de serem salvos à última por um qualquer super-herói ou acto divino.

Foi deste último tipo que achei que tinha de me afastar, até porque acho que tenho, mais ou menos (in)conscientemente, pertencido a esse rebanho de olhinhos arregalados, à porta do matadouro. Não que eu acredite que ter feito greve me afaste da porta do matadouro. A porta do matadouro já ficou lá para trás e a diferença que se faz ao dizer NÃO é, na prática, nenhuma. Porque tudo se passa para além do meu controlo, para além do nosso controlo e, acredito cada vez mais, do controlo seja de quem for. Já ninguém sabe da chave do matadouro.

Fazer greve hoje em dia é muito na base do not going down without a fight. Uma espécie de "A união faz a nega". Foi assim a minha.

November 09, 2010

what kind of humanist are you?

Hedonistic Humanist

You are one of life’s enjoyers, determined to get the most you can out of your brief spell on this glorious planet. What first attracted you to atheism was the prospect of liberation from the Ten Commandments, few of which are compatible with a life of pleasure. You play hard and work quite hard, have a strong sense of loyalty and a relaxed but consistent approach to your philosophy. You can’t see the point of abstract principles and probably wouldn’t lay down your life for a concept, though you might for a friend. Something of a champagne humanist, you admire George Bernard Shaw for his cheerful agnosticism and pursuit of sensual rewards, and your Hollywood hero is Marlon Brando, who was beautiful (for a while), irascible and aimed for goodness in his own tortured way. You adored the humanist London bus slogan (“There’s probably no God, now stop worrying and enjoy your life”) and are delighted that wild young comedians like Stewart Lee, Christina Martin and Ricky Gervais share your full-blooded rejection of religion. Sometimes you might be tempted to allow your own pleasures to take precedence over your ethics. But everyone is striving for that elusive balance between the good and the happy life. You’d probably better open another bottle and agree that for you there’s no contest.

Para descobrir aqui.

November 08, 2010

parental guidance

A pessoa até pode ser preguiçosa para blogar, mas é muito impossível deixar passar este site, as coisas maravilhosas que vende e os vídeos que as promovem.

Por falar em agent provocateur...

October 22, 2010

eu tinha deus à frente e não consegui fazer nada

Vinha andando devagar, depois de entregar o puto no karaté, a caminho de um pequeno desvio para passar na vet e comprar ração para a esfomeada da gata, quando avisto duas mulheres a dirigirem-se para a porta de um prédio, à frente da qual eu só não passaria se me desviasse de uma maneira absurda. Tinham ambas cerca de 60 anos, uma delas vestia em tons de terra e a outra de negro fechado. Esta segunda quase gritava, com a voz embargada, fazendo supor que já tinha chorado ou ia a caminho disso. A em tons de terra tentava acalma-la sem muita convicção, ou então não tinha jeito. Quando dei por elas, ainda estava distante para perceber do que falavam, mas, à medida que me aproximava comecei a perceber que o assunto tinha a ver com algo que se passara na sacristia. A primeira frase que me fez sentido foi da consoladora, que hesitava um "Mas tu não podes dar ouvidos a tudo o que ela diz!". A pobre de negro atirou-lhe um suspiro/grito todo áspero e desalentado, mas ininteligível. Quando me abeirei delas, ela gritou, virando-se na minha direcção, com o braço esticado e a mão direita em concha, a fazer lembrar pantomimas de excesso de representação: "Mas tu não viste com os teus olhos?! Eu estava à frente de Deus e não consegui fazer nada! Não consegui fazer nada...".

Fui salva pela esquina que estava logo à frente.

October 08, 2010

obrigada



CROMA!

(agora tenho de ler outra vez para sublinhar!)

"sem nenhum desejo para ser realizado"

PREGUIÇA

As pessoas trabalham mais hoje do que alguma vez aconteceu. Di-lo o filo...sofo suíço radicado em Inglaterra Alain de Botton, que teve a sorte que muitos de nós desejariam – é herdeiro de uma grande fortuna familiar, apesar de por um daqueles arbítrios que apenas os milionários se podem permitir, decidiu prescindir dela, e viver apenas dos seus ganhos como escritor.

Temos a sensação que vivemos na era do lazer, das férias, das viagens por prazer, mas é capaz de não ser assim. Trabalhamos demais diz ele. Na Idade Média a maior parte das pessoas trabalhava até ganhar o dinheiro que precisava para sobreviver e depois parava para desfrutar do que conseguira. Só voltava a trabalhar quando o dinheiro acabava. Na era industrial as pessoas começaram a cumprir as jornadas regulares de trabalho.

Hoje vivemos obcecados em ter uma vida produtiva. Trabalhar muito. Trabalhar incessantemente. Todos conhecemos alguém que fica com inquietações ao domingo à tarde com saudades do escritório. Ou quem invente desculpas para não tirar férias. Não é por acaso que nas férias aumentam as separações entre casais, os conflitos entre pais e filhos tendem a agudizar-se e os níveis de ansiedade para quem está habituado à rotina sobem imenso.

É difícil aceitar a preguiça. Aquela que é desejada, permitida, feliz. Porque também a há desgraçada, nascida da revolta, quando nos obrigam a algo que não desejamos. Falo daquela que irrompe, depois de um momento de satisfação, cumprido com um bom repasto ou de uma conversa agradável. É aí que, consolado, sem nenhum desejo para ser realizado, o corpo e a mente se entregam ao repouso, reconciliando-se com o mundo.

É do senso comum ouvir dizer-se que os portugueses trabalham pouco. Tenho dúvidas. Não sabem é, na maior parte das vezes, optimizar de forma qualitativa o seu tempo de trabalho. O historiador holandês Johan Huizinga defende que uma vida produtiva só é possível com muitos momentos de improdutividade. Ao homem da produção, do consumo e do trabalho, contrapõe o homem do jogo, do lúdico, da festa. Para ele, o homem trabalha, apenas porque deixou de saber desfrutar.

Ou seja, não sabe o que fazer com o ócio. Com o trabalho não. Vive-o como obrigação. Necessidade. Forma de disciplina. Paixão, para quem gosta muito do que faz. Forma de felicidade. Uma maneira de se manter entretido e de afastar a ideia de morte. Seja o que for, o trabalho identifica. Somos o que fazemos. É por isso que é tão difícil estar no desemprego. Não é apenas o dinheiro. É também a identidade de cada um que se joga. Fora do mercado de trabalho é como se não se existisse.

Estranha sociedade esta em que uma parte está desesperada, por excesso de trabalho, e a outra por não ter emprego. Uma sociedade onde se fala do esbanjamento de recursos naturais, como o petróleo e a água, e onde se esquece o desperdício do recurso mais precioso, o ser humano, com direito ao trabalho e à preguiça, porque o tempo é o principal recurso não renovável.

PÚBLICO 6-10-2010

Por: Vitor Belanciano

(sulinhados meus)

October 05, 2010

sim, foste de certeza tu que me mostraste



Mas eu esqueço-me das coisas. E, sim, eu já o tinha posto aqui, mas foi há tanto tempo... E aquele vídeo já nem existe. E este é daqueles farsolas, mas ao menos dá para ouvir. E o blog, como dizê-lo?, é meu.

September 29, 2010

wednesday



Harold's Planet

educação sexual hardcore

Indonésia: Testes de virgindade para alunas acederem a bolsas escolares

Na província de Jambi, na Indonésia, um legislador preocupado com a promiscuidade dos jovens do país quer que as candidatas a receber bolsas escolares provem ser virgens.

o resto

September 21, 2010

Avante, camarada MEC!


“Dizem-se muitas mentiras acerca da Festa do Avante! Estas são as mais populares: que é irrelevante; que é um anacronismo; que é decadente; que é um grande negócio disfarçado de festa; que já perdeu o conteúdo político; que hoje é só comes e bebes.

Já é a Segunda vez que lá vou e posso garantir que não é nada dessas coisas e que não só é escusado como perigoso fingir que é. Porque a verdade verdadinha é que a Festa do Avante faz um bocadinho de medo."

O resto aqui.

E a foto é da Sandra (está bom de se ver).

sem respirar

September 20, 2010

de Escrever



Mi conducta de lector, tanto en mi juventud como en la actualidad, es profundamente humilde. Es decir, te va a parecer quizá ingenuo y tonto, pero cuando yo abro un libro lo abro como puedo abrir un paquete de chocolate, o entrar en el cine, o llegar por primera vez a la cama de una mujer que deseo; es decir, es una sensación de esperanza, de felicidad anticipada, de que todo va a ser bello, de que todo va a ser hermoso.

September 15, 2010

September 10, 2010

Gira-Noite



da série, Coisas que as pessoas fazem quando não têm sono.

September 09, 2010

ajuda de menino é pouca...

se isto não é um sinal...

Depois de uns meses a ir tentando fazer regressar à original grandeza o banner deste espaço de lazer e preguiça, eis que hoje consigo ressuscitar-lhe as devidas proporções bem como, diga-se, o respeito ao artista, que criou para este tamanho e não para um mais pequeno.

September 08, 2010

uma espécie de alternativa

Hoje, em jeito de consolo por ter imaginado a minha despedida para a reforma - em correndo tudo bem, daqui a 26 anos -, na mesma secretária (eventualmente numa posição diferente, aparecida depois de um daqueles dias de loucura e excessos em que se muda alguma coisa da vida lá no serviço), o agrafador grande que só serve de espelho, já um nada enferrujado, o mesmo telefone (último modelo de 2001) e a cadeira especial para aguentar as "oses" todas da coluna, descobri que, para além de escrevedora de cartas para os românticos menos letrados, os desavindos menos eruditos e os saudosos menos palavrosos, de "lanterninha" de um cinema bonito ou de criativa de nomes para as operações da polícia, gostava também de ser imaginadora das alternativas erradas para as respostas às perguntas dos concursos de cultura geral.


(o link acima é meramente auto-referencial, sem interesse nenhum e decorre apenas de eu ter descoberto que o blogger agora tem uma coisa de estatísticas)

August 17, 2010

the fool that follows the fool

"Man is a Religious Animal. Man is the only Religious Animal. He is the only animal that has the True Religion - several of them. He is the only animal that loves his neighbor as himself and cuts his throat if his theology isn't straight. He has made a graveyard of the globe in trying his honest best to smooth his brother's path to happiness and heaven... The higher animals have no religion. And we are told that they are going to be left out in the Hereafter. I wonder why? It seems questionable taste"

Mark Twain

furtado ao vizinho JLx

July 19, 2010

por um caminho ou por outro, estou na parte do "trabalhar 40 anos"


"Na minha próxima vida quero vivê-la de trás para a frente. Começar morto para despachar logo esse assunto. Depois acordar num lar de idosos e sentir-me melhor a cada dia que passa.
Ser expulso porque estou demasiado saudável, ir receber a pensão e começar a trabalhar, receber logo um relógio de ouro no primeiro dia. Trabalhar 40 anos até ser novo o suficiente para gozar a reforma. Divertir-me, embebedar-me e ser de uma forma geral promíscuo, e depois estar pronto para o liceu. Em seguida a primária, fica-se criança e brinca-se. Não temos responsabilidades e ficamos um bébé até nascermos.
Por fim passamos 9 meses a flutuar num spa de luxo com aquecimento central, serviço de quartos à discrição e um quarto maior de dia para dia e depois
Voilá!
Acaba com um orgasmo!
I rest my case."

Woody Allen

Surrupiado daqui mas vindo de um lugar muito longe e bonito.

June 20, 2010

ressalvas

Na verdade, acreditarmos que o mundo muda todos os dias e todas as horas, não significa que dispensemos que algumas balizas sejam traçadas por quem pensa e sabe pensar. A prática há-de sempre distanciar-se da teoria. Porque um homem e as suas palavras não são sempre a sua vida. Sobretudo, não são a vida dos outros.

Dito isto, acho muito bonito que algumas traduções estrangeiras do Memorial do Convento tenham o título Baltazar e Blimunda. É redutor, claro. Mas a nossa perspectiva é sempre nossa e por isso, é sempre pequena.

June 19, 2010

José Saramago (1922 - 2010)


Os ombros dos gigantes

Não é por ter morrido. Morrer, morremos todos. E no caso, nem foi um acontecimento inesperado. José Saramago tinha 87 anos ontem, quando morreu. Já tinha idade para morrer.

O mundo vai ficar um bocadinho mais apertado porque essa morte física nos assegura que não vai escrever mais, intervir mais, ensinar mais. É provável que ainda apareçam linhas e linhas de palavras inéditas dele. Mas ele, o Saramago, a sentar-se à secretária e a escrever, não vai acontecer. O nós com ele, a contemporaneidade dele connosco, cessou. A pertinência dessas letras vai passar a aferir-se pelo passado.

Quando morrem pessoas com este tamanho, desde que sou mãe, não consigo deixar de pensar que o meu filho vai viver num mundo sem elas, que só se ler ou procurar com muito afinco poderá crescer como eu cresci a lê-lo e a ouvi-lo, destemido e ponderado. Sério. Não vai ligar a televisão e deparar-se com declarações que ele fez nesse dia ou beber das suas palavras e silêncios numa entrevista que tivemos a sorte de apanhar. Não vai receber SMS da obsessiva Sandra a avisar que essas entrevistas estão no ar e correr para a televisão. Vai ter muitas outras coisas, mas vão faltar-lhe estas.

O primeiro livro que li do Saramago, há talvez uns quinze anos, foi o Memorial do Convento. A minha tenaz amiga Mafalda insistia que eu lesse e eu, eivada dos preconceitos que sempre afastarão tantos leitores da sua obra, resisti até mais não poder. Ela, a Mafalda, é das amigas mais casmurras que tenho perto (embora tenha mais, agora que penso nisso) e, como muitas outras vezes, venceu a peleia. Já lhe agradeci pessoalmente várias vezes, muitas outras depois, sozinha, pelo menos uma por cada livro de Saramago que li. Faltava deixar aqui registado: obrigada.

José Saramago morre no mesmo ano que JD Salinger. No meu mundo, já são dois bocadinhos menos. Menos quatro ombros.

Hermandad

Octavio Paz
Homenaje a Claudio Ptolomeo

Soy hombre: duro poco
Y es enorme la noche.
Pero miro hacia arriba:
Las estrellas escriben.
Sin entender compreendo:
También soy escritura
Y en este mismo instante
Alguien me deletrea.


A foto não sei quem a tirou, mas eu tirei-a daqui.


June 03, 2010

serviço público online - little taily polka dots

Há regras de pontuação que são mais complicadas do que outras. Curiosamente, no que respeita a vírgulas, parece que o mais difícil é usá-las de uma forma lógica, ou seja, usá-las para fazer distinções lógicas. Já uma vez aqui disse que regras uso (e proponho, claro está, porque o que acho bom para mim também acho bom para os outros!) para pôr vírgulas, mas algumas delas não são standard, e menos ainda na tradição portuguesa, de maneira que não insisto nelas, nem digo que seja erro fazer doutras maneiras. Agora, há um erro que considero mesmo erro (porque é dizer o que não se quer!), que tenho visto tantas vezes ultimamente que quero insistir aqui na necessidade de distinguir, na escrita, sintagmas restritivos de sintagmas apositivos: os primeiros, sem os quais a frase não passa, não vêm entre vírgulas; os segundos, que dão informação acessória, vêm entre vírgulas.

(tudo aqui, na Travessa do Fala-Só)

May 30, 2010

I want all this marked on my body



We're the real countries, not the boundaries draw on maps, the names of powerfull men...

May 25, 2010

a Estrada da Beira e a beira-da-estrada


Ronaldo quer processar "Vanity Fair"

O primeiro jogo de Portugal no Mundial da África do SulCristiano Ronaldo não gostou de ter sido capa de uma revista americana, em cuecas, ao lado de Didier Drogba, da Costa da Marfim.

(in Expresso)

May 20, 2010

ainda isto?!

- Boa tarde, preciso daquela pecinha que apoio a pecinha onde se apoia a chávena, por favor. A minha máquina é como aquela ali... (aponto graciosamente, porque apontar é feio)
- E a sua máquina é branca, preta, cinzenta?...
- É vermelha.
- Ah... Encarnada.
- É vermelha.

May 19, 2010

o trigo e o joio ou apenas uma feliz coincidência?

Temos sempre tantos motivos para fazer posts por o atendimento nos serviços públicos ser, na melhor das hipóteses, sofrível, que não podia deixar de aqui escrever que, no meu Centro de Saúde, os serviços administrativos são um exemplo de eficiência e eficácia. E são tão rápidos a atender os utentes, que estes ficam invariavelmente entre o incrédulo e o um bocadinho feliz ao olhar para a senha e confirmar (os mais obsessivos ainda re-confirmam) que vão ser atendidos depressa. Não são muito simpáticos, não, mas acabamos todos por os dispensar dessa competência, porque o primeiro passo para nos despacharmos depressa dali está dado. A sensação de dissipação do limbo em que entramos mal recolhemos a senha do dispensador e tomamos consciência que ninguém sabe ao que estamos, funciona como motivação para a paciência que nos habituámos a ter naqueles lugares, mas com a qual nunca nos conformámos.

Quase não é preciso dizer que funciona num prédio inenarrável, construído para ser habitado, labiríntico e sem elevador, mas, naquele momento inicial, sentimo-nos todos tão do Norte da Europa que imagino que até os mais sisudos e refilões fiquem com a mão mais leve e a língua menos afiada.

May 09, 2010

sob o signo da Chimay, me pergunto

Olha se o único dia que eu tivesse para ir à Feira do Livro fosse hoje à noite?... É que não deve estar fácil chegar às bancas com aquele pessoal todo que lá anda.

May 04, 2010

William tell (s), 57

[durante uma birra pré-adolescente...]

W - Morituri te salutant!
Sua Mãe (uma santa!) - Se é para fazeres bem a birra, diz-se: Ave César! Morituri te salutant!
W - Pois, mas tu não és o César. O César é o Pai. Tu és o César little helper.

[... e recolheu aos seus aposentos]

May 02, 2010

os receios de Abraracourcix


Não é muito fácil evitar discorrer banalidades depois de um fim-de-semana no Alentejo, na Primavera consequente de um dos Invernos mais chuvosos de que há registo. Esta fotografia foi tirada com o telemóvel, do carro em andamento. Resulta pois da mais pura generosidade dos elementos, conjurados para encher a alma de quem passava e em tornar o disparador das máquinas fotográficas numa extensão natural dos dedos indicadores.

going down

going up

April 04, 2010

para ficar comigo

First they came...

"THEY CAME FIRST for the Communists,
and I didn't speak up because I wasn't a Communist.

THEN THEY CAME for the Jews,
and I didn't speak up because I wasn't a Jew.

THEN THEY CAME for the trade unionists,
and I didn't speak up because I wasn't a trade unionist.

THEN THEY CAME for the Catholics,
and I didn’t speak up because I was a Protestant.

THEN THEY CAME for me
and by that time no one was left to speak up."


das origens

March 15, 2010

agradecimentos

No livro-disco Uma Autora, 202 Canções, a Amélia Muge, nos agradecimentos, a final, escreve "Aos que ouvem os meus discos e/ou vêm aos meus concertos: sois sempre uma das minhas mais perfeitas imagens do futuro.".

O pedacinho de mim que está naquela última frase sorri-se todo ao lê-la. E a minha vida eleitoral era bem mais simples se os candidatos me chegassem assim...

Na FNAC, puseram-na na prateleira dos audio-livros, um produto ainda tão pouco apelativo, tão ainda mais adequado aos mortos-clássicos que aos vivos-que-respiram. Eu, depois de muito procurar, descobri-a por mero acaso. Ignoro os critérios da indústria para a distribuição das prateleiras, mas não duvido que a escolha, por mais lisonjeira que pareça em teoria, acabe por esconder o empenho, a dedicação, a música e os poemas. Vender o que se faz e abrir cabeças com o que achamos pode fazer diferença, são os objectivos primordiais de quem faz arte próxima da realidade que é o pedaço de tempo que aqui temos. Porque precisamos de satisfazer necessidades primeiras. Porque senão mais valia um emprego de sair-e-não-pensar-mais-naquilo.

Ter de aguentar a uniformização da indecisão de quem decide afasta-nos a todos de ser um bocadinho melhores.

March 12, 2010

momento de design do blog

pois... não era coincidência

O SMS de hoje do Grupo Santogal é:

No dia do Pai, dê o presente ideal! Oportunidade única Mini Kit Slim Mãos Livres Bluetooth por 75€.

Para eles, que não precisam do Kit Sensores Estacionamento, um Mini Kit Slim Mãos Livres Bluetooth, para poderem usar as mãos para conduzir, caso seja mesmo necessário.

March 08, 2010

suponho que não seja coincidência

O SMS que recebi do Grupo Santogal:

Feliz Dia da Mulher! Ate 12 Marco oportunidade unica, Kit Sensores Estacionamento por apenas 149,90Euros (c/instalacao e IVA).

Estranhamente não era a instalação das escovas limpa pára-brisas (que até se podia justificar considerando o uso inusitado a que têm sido submetidas) ou das pastilhas dos travões, ou o apegreide do sáundesisteme, mas o kit de sensores de estacionamento...

March 02, 2010

dias sem nomes

Hoje é dia da Mulher Angolana.


Sua pele macia era sumaúma…
Sua pele macia, da cor do jambo, cheirando a rosas
sua pele macia guardava as doçuras do corpo rijo
tão rijo e tão doce – como o maboque…
Seus seios, laranjas – laranjas do Loje
seus dentes… – marfim…

Viriato Cruz


Foto Pedro Sousa

acordar assim

February 24, 2010