March 05, 2012
No leito da morte de Eugénio de Andrade (fim)
antes que feches a luz,
que os rebanhos estejam recolhidos
e os credores se tenham afastado da nossa porta,
mas que tenhamos pago as dívidas aos que nos serviram
e aos que nos amaram e aos que nos esperaram;
as tuas grandes mãos sustentarão o telhado e as paredes
e moerão o grão e fermentarão o trigo,
apaga com as tuas mãos o nosso rasto
e que repousemos
sem motivo para nos culparmos
por não termos sido felizes.
Manuel António Pina, in Como se desenha uma casa
February 26, 2012
February 25, 2012
deixa estar
descarnar
circunstâncias
February 23, 2012
33 ways to stay creative
2. carry a notebook everywhere
3. try free writing
4. get away from the computer
5. be otherwordly
6. quit beating youself up
7. take breaks
8. sing in the shower
9. drink coffe or tea
10. know your roots
11. listen to new music
12. be open
13. surround yourself with creative people
14. get feedback
15. collaborate
16. don´t give up
17. practice, pratice, practice
18. allow yourself to make mistakes
19. go somewhere new
20. watch foreign films
21. count your blessings
22. get lots of rest
23. take risks
24. break the rules
25. do more of what makes you happy
26. don´t force it
27. read a page of the dictionary
28. create a framework
29. stop trying to be someone else's perfect
30. got an idea? write it down
31. clean your workspace
32. have fun
33. finish something
daqui
aprender silêncios (excertos em contexto)
vezes me lembrei de que esse sítio podia
ser, até, um lugar sem nada de especial,
como um canto de café, em frente de um espelho
que poderia servir de pretexto
para reflectir a alma, a impressão da tarde,
o último estertor do dia antes de nos despedirmos,
quando é preciso encontrar uma fórmula que
disfarce o que, afinal, não conseguimos dizer.
vai (work in progress)
February 19, 2012
espaço
February 18, 2012
free will and testament
Given free will but within certain limitations,
I cannot will myself to limitless mutations,
I cannot know what I would be if I were not me,
I can only guess me.
So when I say that I know me, how can I know that?
What kind of spider understands arachnophobia?
I have my senses and my sense of having senses.
Do I guide them? Or they me?
The weight of dust exceeds the weight of settled objects.
What can it mean, such gravity without a centre?
Is there freedom to un-be?
Is there freedom from will-to-be?
Sheer momentum makes us act this way or that way
We just invent or just assume a motivation
I would disperse, be disconnected. Is this possible?
What are soldiers without a foe?
Be in the air, but not be air, be in the no air
Be on the loose, neither compacted nor suspended
Neither born nor left to die.
Had I been free, I could have chosen not to be me.
Demented forces push me madly round a treadmill.
Demented forces push me madly round a treadmill.
Let me off please, I am so tired.
Let me off please, I am so very tired.
lugares da infância
sem palavras e sem memória
alguém, talvez eu, brincou
já lá não estão nem lá estou.
Onde? Diante
de que mistério
em que, como num espelho hesitante,
o meu rosto, outro rosto, se reflecte?
Venderam a casa, as flores
do jardim, se lhes toco, põem-se hirtas
e geladas, e sob os meus passos
desfazem-se imateriais as rosas e as recordações.
O quarto eu não o via
porque era ele os meus olhos;
e eu não o sabia,
e essa era a sabedoria.
Agora sei estas coisas
de um modo que não me pertence,
como se as tivesse roubado.
A casa já não cresce
à volta da sala,
puseram a mesa para quatro
e o coração só para três.
Falta alguém, não sei quem,
foi cortar o cabelo e só voltou
oito dias depois, já o
jantar tinha arrefecido.
E fico de novo sozinho,
na cama vazia, no quarto vazio.
Lá fora é de noite, ladram os cães;
e cubro a cabeça com os lençóis.
Manuel António Pina
Entrevista ao i, a reler vezes sem conta, como os bichos.
dias
February 17, 2012
dias
em sonhos é sabido não se morre
Lembro-me desse sonho muitas vezes e lembrei quando o Saramago contou o sonho recorrente que tinha em criança, no filme José e Pilar, e depois, ao ler o livro com o mesmo nome. E aconteceu-me como a ele: "Mas com o tempo e a repetiçao desse sonho eu acabei por saber que não ia acontecer nada e quando o sonho começava eu já nem me importava muito, porque sabia como ia acabar. Portanto o que podia tornar-se um pesadelo insuportável acabou por se transformar afinal numa espécie de jogo."
Hoje, em mais um destes dias tão intensamente povoados de realidade, nem sei bem porque me voltei a lembrar do sonho. Ou então sei, mas ainda não percebi bem. Mas pode ter a ver com a sensação que temos naqueles filmes em que o protagonista chega a uma aldeia que só parece deserta porque uns estão a fazer a sesta e os que o esperam não contavam com ele tão cedo.
February 14, 2012
mas depois
tentações
February 13, 2012
não é o amor que é um lugar estranho
sombras (excertos em contexto)
nem o futuro: é certo que
temos um corpo, mas é um corpo inerte,
feito mais de coisas como esperança e desejo,
do que de carne, sangue e nervos
in Separação do corpo
espaços em negro
E os dias depois passam. Como a tristeza no outro post.
ainda ao sol (excertos em contexto)
Sem os espelhos vi que estava nua
E ao descampado se chamava tempo
in Para atravessar contigo o deserto do mundo
exercícios posturais
February 12, 2012
October 24, 2011
October 18, 2011
o retorno
Os outros maridos do bairro não traziam coisas do trabalho ou traziam porcarias como o da D. Alzira, que interesse pode ter tantos cinzeiros com o emblema da Cuca ou o resto de fazendas que o marido da D. Gilda que trabalhava na Gajajeira trazia, nem para panos de cozinha davam, era o mesmo que não trazerem nada. O pai trazia coisas boas dos navios estrangeiros, levava os camiões carregados de café e trazia-nos coisas tão boas que a mãe deixava de ser a D. Glória que tinha problemas e passava a D. Glória que tinha os seus problemas, o que era completamente diferente de ter problemas, toda a gente tem os seus problemas, mesmo as vizinhas. A mãe mostrava os perfumes franceses e as vizinhas, tem de pôr só umas gotinhas de cada vez, a mãe não as ouvia e encharcava-se com perfume francês, um cheiro tão forte que nos dava tosse e nos punha tontos, ainda bem que os perfumes franceses eram pequeninos e se gastavam depressa. O pior era que quando a mãe voltava a cheirar a água-de-colónia Si Fraîche como todas as vizinhas passava a ser outra vez a D. Glória que tinha problemas ou mesmo a D. Glória que tinha aqueles problemas.
Dulce Maria Cardoso, O Retorno (Tinta-da-China, 2011)
October 15, 2011
"Não sinto que tenha de pedir desculpa aos portugueses"
September 11, 2011
9/11x10
| NYC-06/2009 |
August 20, 2011
das dificuldades de viver em sociedade
August 18, 2011
quotidianos contextualizados
Winston Churchill
Speech in the House of Commons (1947-11-11)
The Official Report, House of Commons (5th Series), 11 November 1947, vol. 444, cc. 206–07.
Wikiquote
August 15, 2011
August 14, 2011
a cidade dos livros
August 10, 2011
a pessoa está sempre a sofrer
August 07, 2011
já tenho uma certa idade
August 06, 2011
August 01, 2011
de companhia ao serão
Kanye West, Coachella 2011
labour
difícil encontrar um dedinho tão certeiro
Dois exemplos difíceis de seleccionar no melhor blog de maminhas que já nos passou pelo monitor.
suburbia
July 23, 2011
July 17, 2011
apontamento
July 14, 2011
"um bom vício retira à morte a suposição"
De certo modo, ser um viciado é uma coisa bastante proactivista. Um bom vício retira à morte a suposição. Existe mesmo uma coisa que é planear a tua fuga.
Chuck Palahniuk, in "Asfixia"
July 13, 2011
não sei
only an expert
July 12, 2011
mas estão mesmo a oferecer?...
Sejamos rigorosos que o evento não pede menos:
No dia 4, ou seja, na semana passada, cheguei a casa e não tinha televisão. Tinha internet, se calhar até tinha telefone, mas televisão, não. Pensei logo que já tinha feito asneira (eu sou uma pessoa que tende para a asneira fácil e que acredita que sua minha presença ou até a ausência podem dar confusão) e liguei para a linha do cliente da Zon. Nada, que tinham muitas solicitações e pediam para ligar mais tarde, isto já numa gravação. Mandei um sms à Susana, que também tem Zon. A Susana tinha televisão. Fui comer qualquer coisa naquela cozinha silenciosa. Liguei outra vez para a linha, ainda convicta de ter pressionado com a mente um botão errado. Já tinham outra gravação, esta a assumir a catástrofe, um sem número de localidades mantidas na ignorância ou pior. Paciente, desisti do projecto TV e fui ver do mundo pelas vias menos ligadas à culinária e aos afazeres domésticos.
Esquecida do que se tinha passado, recebo hoje, na caixa do correio (mesmo a do prédio, a física), uma carta da Zon (não um mail, mesmo uma carta, assim em papel) onde me pedem desculpa por me terem interrompido o serviço de televisão, internet e telefone. Mas pedem desculpa a bold e logo a seguir ao "Estimado cliente," ou seja, sentimento sincero. Prometem que desenvolvem esforços (esforços não, todos os esforços!) para que se não repita.
Já transbordante de felicidade por ter um fornecedor de serviços de acesso ao universo tão educado e empenhado, passo à segunda parte da missiva - já entremeada com uma lista de pontinhos - à espera de alguma desagradável e desnecessária publicidade. Longe disso. Oferecem-me um filme grátis no Zon videoclube. A lista dos pontinhos é para eu aprender a usar o filme e um código para o poder ver.
O mundo está a mudar e nem sempre é para pior?
July 05, 2011
quase onomatopeias
FT
July 02, 2011
questões de princípio
sentar numa cadeira virada para o mar
estações de comboios
quase adormecer ao sol
não perder a lua cheia
ouvir
falar baixo
rir alto
contrabaixos
observar
não perder as outras luas
crescer
adivinhar as marés
calcorrear as cidades
flores pequeninas nos campos
caminhar praias
não esquecer as perseidas de Agosto
fumar
menos profundidade de campo
radiografias
demorar a ler
preferir não dizer
chorar no cinema
areia grossa
indecidir
rabiscar estrelas de David ao telefone
maçãs vermelhas
beijos nos ombros
cerejas rijas
não conseguir não dizer
sonhar acordada
fazer pinos no mar
mergulhar a fazer de bala
nadar nua
ser medricas
rabiscar claves de sol ao telefone
mãos
pés
coincidências
sonhar a dormir
arrepios de músicas
fingir que não conheço
utopias
não saber as horas
África
mar
cheirar
farófias e leite creme
lembrar que já passou
chuva morna
não perceber tarifários
rugas
esplanadas
sesta
manjericão e cebolinho
aeroportos pequenos
túlipas
antúrios
filmes de terror
cabelos brancos
sorrisos largos
canela
morder nos braços
sol de manhã
kompensan
ombros de gigantes
vento
partes de poemas
partes de prosas
partes de corpos
June 03, 2011
quanto custam os vaidosos?
Este parágrafo de cima pode passar por desabafo, e sê-lo-à, numa primeira acepção (ou aceção, à letra de 1990), mas, em bom rigor, é uma pérola de sabedoria, testemunho observador de uma às vezes inconsciente sabedoria, de uma quase-destravada capacidade de manipular a realidade a nosso favor, de um talento que não encontro melhor expressão para nomear que dodge the bullets. Sobrevivência ao mais discreto e bem sucedido nível.
O mundo do trabalho está cheio de últimos moicanos, capazes de fazerem tábua rasa dos mais verificados factos da vida, instintiva e paulatinamente defendendo tudo o que vá contra o seu conforto, as suas horas na internet, o seu pequeno poder, os seus direitozinhos de pequeno chefe.
O dia (minuto, hora) depois, se soubermos olhar para ele a nosso favor, é sempre um dia melhor e a culpa é para os que acreditam que ela existe.
Abençoados sejam os que precisam, porque é deles a convicção de que reinam nos céus.
May 31, 2011
(não) temos pena
Já se esgotou este modelo, esta coisa das campanhas eleitorais, com as agendas, as palavras de circunstância, as circunstâncias sem palavras, os pormenores sórdidos, as cores das gravatas, os assessores de imagem, a previsibilidade, os crops nas imagens famintas de parecerem muitas, os cronómetros a correr e ninguém a aprender, os planos adequados, a falta de imaginação de quem finge que dá, os formatos de durante e os disformes do depois, as sondagens cheias de números que oscilam num faz-de-conta diário e extenuante, o povo que ali está pelo movimento.
Às vezes ocorre-me que, numa linha de tempo, o que havia de humano nos humanos ficou lá, nos idos do século XX. Nos de 2000, tudo é como devia ser, todos sabem as regras ou que existem regras. No mundo convencional da política, não há jogadores fora de jogo e todos os jogos são longos e penosos prolongamentos, sempre iguais, sempre de acordo com as normas. Aqui o jantar é sopa todos os dias, tem cada vez menos legumes e este não é um eufemismo da crise.
Ou como li daqui, numa citação de Tiziano Terzani (Disse-me um Adivinho)
Todos nos devemos perguntar — e sempre — se aquilo que estamos a fazer melhora e enriquece a nossa existência. Ou será que, devido a qualquer deformação anormal, todos perdemos o instinto em relação àquilo que a vida deveria ser, ou seja, mais do que tudo um momento de felicidade?
May 30, 2011
EN MATILDE
—La oficina viene a las nueve —me dice— y por eso a las ocho y media mi departamento se me sale y la escalera me resbala rápido porque con los problemas del transporte no es fácil que la oficina llegue a tiempo. El ómnibus, por ejemplo, casi siempre el aire está vacío en la esquina, la calle pasa pronto porque yo la ayudo echándola atrás con los zapatos; por eso el tiempo no tiene que esperarme, siempre llego primero. Al final el desayuno se pone en fila para que el ómnibus abra la boca, se ve que le gusta saborearnos hasta el último. Igual que la oficina, con esa lengua cuadrada que va subiendo los bocados hasta el segundo y el tercer piso.
—Ah —digo yo, que soy tan elocuente.
—Por supuesto —dice Matilde—, los libros de contabilidad son lo peor, apenas me doy cuenta y ya salieron del cajón, la lapicera me salta a la mano y los números se apuran a ponérsele debajo, por más despacio que escriba siempre están ahí y la lapicera no se les escapa nunca. Le diré que todo eso me cansa bastante, de manera que siempre termino dejando que el ascensor me agarre (y le juro que no soy la única, muy al contrario), y me apuro a ir hacia la noche que a veces está muy lejos y no quiere venir. Menos mal que en el café de la esquina hay siempre algún sándwich que quiere metérseme en la mano, eso me da fuerzas para no pensar que después yo voy a ser el sándwich del ómnibus. Cuando el living de mi casa termina de empaquetarme y la ropa se va a las perchas y los cajones para dejarle el sitio a la bata de terciopelo que tanto me habrá estado esperando, la pobre, descubro que la cena le está diciendo algo a mi marido que se ha dejado atrapar por el sofá y las noticias que salen como bandadas de buitres del diario. En todo caso el arroz o la carne han tomado la delantera y no hay más que dejarlos entrar en las cacerolas, hasta que los platos deciden apoderarse de todo aunque poco les dura porque la comida termina siempre por subirse a nuestras bocas que entre tanto se han vaciado de las palabras atraídas por los oídos.
—Es toda una jornada —digo.
Matilde asiente; es tan buena que el asentimiento no tiene ninguna dificultad en habitarla, de ser feliz mientras está en Matilde.
Julio Cortázar, Papeles inesperados, Alfaguara, Madrid, 2009
April 09, 2011
April 07, 2011
economia my ass, é mesmo o dinheiro
Criou-se foi esta ficção do merecimento, que existe apenas para justificar que uma mão-cheia de pessoas ganhe quantias astronómicas. Eu não tenho dúvidas que, num sistema justo e equilibrado, faria o que faço, como faço, ainda que ganhasse metade do que ganho, porque é o meu trabalho e porque aquele seria o meu dinheiro. Nem é a questão do ovo e da galinha, o mérito, como outros mecanismos capitalistas, foi sintetizado para justificar benesses e privilégios que, para além de terem feito sentar à sombra da bananeira muitos de quem os recebeu, escarrapacharam a humanidade de quem os atribuía, porque o ser humano, lá está, é humano, e não consegue considerar variantes exclusivamente objectivas, até porque não existem. Logo, devia aplicar-se a regra básica do "não sabe, não estraga".
É como se continuássemos todos a ser crianças e recebêssemos prendas quando saem as notas dos períodos escolares. Lamento informar que somos crescidos e não temos de ser recompensados porque fazemos o que temos de fazer, bem feito. Temos de trabalhar, fazer a nossa parte, com consciência de ser importante o contributo e viver o resto. Trabalhar, suponho eu, não será um desígnio natural do homem. É necessário. Faz-se.
Eu não acredito na capacidade de ninguém para avaliar o meu trabalho, tirando eu própria, porque sei o que escolho fazer e deixar para depois. Todos sabemos, querendo. Portanto, quando me perguntam, então o que fazias para resolver, eu não sei responder, porque, neste mundo, as cabeças estão todas formatadas: se são licenciados, não podem fazer limpezas, se são chefes, não fazem trabalho administrativo, se são intelectuais, não sabem utilizar as mãos. E todos, todos, mereciam mais e melhor. Só que isso de merecer só existe se se acreditar em deuses e os deuses não andam a fazer muita prova de vida.
February 24, 2011
por vezes o silêncio
December 08, 2010
December 01, 2010
a água já fica. só falta o pão.
um caso de fé
November 24, 2010
já ninguém sabe da chave do matadouro
Mas hoje, pela primeira vez, fiz greve. Não a fiz porque, a partir de Janeiro, me vão ficar com mais de um dia de vencimento. Nem para aproveitar e dar a ver ao chefe ver o que é bom para a tosse. Fi-la porque, desde há uns anos e em crescendo, na minha rotina laboral especialmente, e nas notícias do país em geral, venho notando o esforço que quem se deixa nomear para mandar, faz para não assumir as responsabilidades que são, indubitavelmente inerentes aos cargos que aceitaram. As normas, as regras e as leis, cada vez mais ininteligíveis, absurdamente longas e complexas, são o ponto de apoio de uma cultura geral de desresponsabilização e, como os exemplos vêm de cima, as chefias e dirigentes da administração pública seguem o air du temps, marcado pelo passo das figuras do Estado e do Governo, que atiram culpas para A Comunidade, para A Crise, para Os Mercados, para Os Especuladores, para A Alemanha, para A Grécia, para A Irlanda. Para O Que Calhar e nos faça esquecer actos e omissões.
Como um Estado violento que, por exemplo, professe e pratique a pena de morte, um Estado esbanjador gera cidadãos esbanjadores, um Estado que não assume os seus erros gera cidadãos irresponsáveis, um Estado que se deixa à mercê dos mais fortes com a justificação de ser tíbio, representa um país de cidadãos frouxos, sempre na disposição de terem quem cuide deles e de serem salvos à última por um qualquer super-herói ou acto divino.
Foi deste último tipo que achei que tinha de me afastar, até porque acho que tenho, mais ou menos (in)conscientemente, pertencido a esse rebanho de olhinhos arregalados, à porta do matadouro. Não que eu acredite que ter feito greve me afaste da porta do matadouro. A porta do matadouro já ficou lá para trás e a diferença que se faz ao dizer NÃO é, na prática, nenhuma. Porque tudo se passa para além do meu controlo, para além do nosso controlo e, acredito cada vez mais, do controlo seja de quem for. Já ninguém sabe da chave do matadouro.
Fazer greve hoje em dia é muito na base do not going down without a fight. Uma espécie de "A união faz a nega". Foi assim a minha.
November 09, 2010
what kind of humanist are you?
Para descobrir aqui.
November 08, 2010
parental guidance
Por falar em agent provocateur...
October 28, 2010
October 22, 2010
eu tinha deus à frente e não consegui fazer nada
Vinha andando devagar, depois de entregar o puto no karaté, a caminho de um pequeno desvio para passar na vet e comprar ração para a esfomeada da gata, quando avisto duas mulheres a dirigirem-se para a porta de um prédio, à frente da qual eu só não passaria se me desviasse de uma maneira absurda. Tinham ambas cerca de 60 anos, uma delas vestia em tons de terra e a outra de negro fechado. Esta segunda quase gritava, com a voz embargada, fazendo supor que já tinha chorado ou ia a caminho disso. A em tons de terra tentava acalma-la sem muita convicção, ou então não tinha jeito. Quando dei por elas, ainda estava distante para perceber do que falavam, mas, à medida que me aproximava comecei a perceber que o assunto tinha a ver com algo que se passara na sacristia. A primeira frase que me fez sentido foi da consoladora, que hesitava um "Mas tu não podes dar ouvidos a tudo o que ela diz!". A pobre de negro atirou-lhe um suspiro/grito todo áspero e desalentado, mas ininteligível. Quando me abeirei delas, ela gritou, virando-se na minha direcção, com o braço esticado e a mão direita em concha, a fazer lembrar pantomimas de excesso de representação: "Mas tu não viste com os teus olhos?! Eu estava à frente de Deus e não consegui fazer nada! Não consegui fazer nada...".
Fui salva pela esquina que estava logo à frente.
October 08, 2010
"sem nenhum desejo para ser realizado"
Temos a sensação que vivemos na era do lazer, das férias, das viagens por prazer, mas é capaz de não ser assim. Trabalhamos demais diz ele. Na Idade Média a maior parte das pessoas trabalhava até ganhar o dinheiro que precisava para sobreviver e depois parava para desfrutar do que conseguira. Só voltava a trabalhar quando o dinheiro acabava. Na era industrial as pessoas começaram a cumprir as jornadas regulares de trabalho.
Hoje vivemos obcecados em ter uma vida produtiva. Trabalhar muito. Trabalhar incessantemente. Todos conhecemos alguém que fica com inquietações ao domingo à tarde com saudades do escritório. Ou quem invente desculpas para não tirar férias. Não é por acaso que nas férias aumentam as separações entre casais, os conflitos entre pais e filhos tendem a agudizar-se e os níveis de ansiedade para quem está habituado à rotina sobem imenso.
É difícil aceitar a preguiça. Aquela que é desejada, permitida, feliz. Porque também a há desgraçada, nascida da revolta, quando nos obrigam a algo que não desejamos. Falo daquela que irrompe, depois de um momento de satisfação, cumprido com um bom repasto ou de uma conversa agradável. É aí que, consolado, sem nenhum desejo para ser realizado, o corpo e a mente se entregam ao repouso, reconciliando-se com o mundo.
É do senso comum ouvir dizer-se que os portugueses trabalham pouco. Tenho dúvidas. Não sabem é, na maior parte das vezes, optimizar de forma qualitativa o seu tempo de trabalho. O historiador holandês Johan Huizinga defende que uma vida produtiva só é possível com muitos momentos de improdutividade. Ao homem da produção, do consumo e do trabalho, contrapõe o homem do jogo, do lúdico, da festa. Para ele, o homem trabalha, apenas porque deixou de saber desfrutar.
Ou seja, não sabe o que fazer com o ócio. Com o trabalho não. Vive-o como obrigação. Necessidade. Forma de disciplina. Paixão, para quem gosta muito do que faz. Forma de felicidade. Uma maneira de se manter entretido e de afastar a ideia de morte. Seja o que for, o trabalho identifica. Somos o que fazemos. É por isso que é tão difícil estar no desemprego. Não é apenas o dinheiro. É também a identidade de cada um que se joga. Fora do mercado de trabalho é como se não se existisse.
Estranha sociedade esta em que uma parte está desesperada, por excesso de trabalho, e a outra por não ter emprego. Uma sociedade onde se fala do esbanjamento de recursos naturais, como o petróleo e a água, e onde se esquece o desperdício do recurso mais precioso, o ser humano, com direito ao trabalho e à preguiça, porque o tempo é o principal recurso não renovável.
PÚBLICO 6-10-2010
Por: Vitor Belanciano
(sulinhados meus)
October 05, 2010
sim, foste de certeza tu que me mostraste
Mas eu esqueço-me das coisas. E, sim, eu já o tinha posto aqui, mas foi há tanto tempo... E aquele vídeo já nem existe. E este é daqueles farsolas, mas ao menos dá para ouvir. E o blog, como dizê-lo?, é meu.
October 04, 2010
Phillip Roth plz
September 29, 2010
educação sexual hardcore
Indonésia: Testes de virgindade para alunas acederem a bolsas escolares
Na província de Jambi, na Indonésia, um legislador preocupado com a promiscuidade dos jovens do país quer que as candidatas a receber bolsas escolares provem ser virgens.
September 27, 2010
September 21, 2010
Avante, camarada MEC!

sem respirar
September 20, 2010
de Escrever
September 15, 2010
September 10, 2010
September 09, 2010
ajuda de menino é pouca...
se isto não é um sinal...
September 08, 2010
uma espécie de alternativa
(o link acima é meramente auto-referencial, sem interesse nenhum e decorre apenas de eu ter descoberto que o blogger agora tem uma coisa de estatísticas)
August 17, 2010
the fool that follows the fool
Mark Twain
furtado ao vizinho JLx
July 19, 2010
por um caminho ou por outro, estou na parte do "trabalhar 40 anos"

Ser expulso porque estou demasiado saudável, ir receber a pensão e começar a trabalhar, receber logo um relógio de ouro no primeiro dia. Trabalhar 40 anos até ser novo o suficiente para gozar a reforma. Divertir-me, embebedar-me e ser de uma forma geral promíscuo, e depois estar pronto para o liceu. Em seguida a primária, fica-se criança e brinca-se. Não temos responsabilidades e ficamos um bébé até nascermos.
Por fim passamos 9 meses a flutuar num spa de luxo com aquecimento central, serviço de quartos à discrição e um quarto maior de dia para dia e depois
Voilá!
Acaba com um orgasmo!
I rest my case."
Woody Allen
Surrupiado daqui mas vindo de um lugar muito longe e bonito.
June 21, 2010
June 20, 2010
ressalvas
Dito isto, acho muito bonito que algumas traduções estrangeiras do Memorial do Convento tenham o título Baltazar e Blimunda. É redutor, claro. Mas a nossa perspectiva é sempre nossa e por isso, é sempre pequena.
June 19, 2010
José Saramago (1922 - 2010)

Não é por ter morrido. Morrer, morremos todos. E no caso, nem foi um acontecimento inesperado. José Saramago tinha 87 anos ontem, quando morreu. Já tinha idade para morrer.
O mundo vai ficar um bocadinho mais apertado porque essa morte física nos assegura que não vai escrever mais, intervir mais, ensinar mais. É provável que ainda apareçam linhas e linhas de palavras inéditas dele. Mas ele, o Saramago, a sentar-se à secretária e a escrever, não vai acontecer. O nós com ele, a contemporaneidade dele connosco, cessou. A pertinência dessas letras vai passar a aferir-se pelo passado.
Quando morrem pessoas com este tamanho, desde que sou mãe, não consigo deixar de pensar que o meu filho vai viver num mundo sem elas, que só se ler ou procurar com muito afinco poderá crescer como eu cresci a lê-lo e a ouvi-lo, destemido e ponderado. Sério. Não vai ligar a televisão e deparar-se com declarações que ele fez nesse dia ou beber das suas palavras e silêncios numa entrevista que tivemos a sorte de apanhar. Não vai receber SMS da obsessiva Sandra a avisar que essas entrevistas estão no ar e correr para a televisão. Vai ter muitas outras coisas, mas vão faltar-lhe estas.
O primeiro livro que li do Saramago, há talvez uns quinze anos, foi o Memorial do Convento. A minha tenaz amiga Mafalda insistia que eu lesse e eu, eivada dos preconceitos que sempre afastarão tantos leitores da sua obra, resisti até mais não poder. Ela, a Mafalda, é das amigas mais casmurras que tenho perto (embora tenha mais, agora que penso nisso) e, como muitas outras vezes, venceu a peleia. Já lhe agradeci pessoalmente várias vezes, muitas outras depois, sozinha, pelo menos uma por cada livro de Saramago que li. Faltava deixar aqui registado: obrigada.
José Saramago morre no mesmo ano que JD Salinger. No meu mundo, já são dois bocadinhos menos. Menos quatro ombros.
Hermandad
Octavio Paz
Homenaje a Claudio Ptolomeo
Soy hombre: duro poco
Y es enorme la noche.
Pero miro hacia arriba:
Las estrellas escriben.
Sin entender compreendo:
También soy escritura
Y en este mismo instante
Alguien me deletrea.
A foto não sei quem a tirou, mas eu tirei-a daqui.
June 18, 2010
June 08, 2010
bed time emptiness
June 03, 2010
serviço público online - little taily polka dots
(tudo aqui, na Travessa do Fala-Só)
June 02, 2010
May 30, 2010
I want all this marked on my body
We're the real countries, not the boundaries draw on maps, the names of powerfull men...
May 25, 2010
a Estrada da Beira e a beira-da-estrada

Ronaldo quer processar "Vanity Fair"
O primeiro jogo de Portugal no Mundial da África do SulCristiano Ronaldo não gostou de ter sido capa de uma revista americana, em cuecas, ao lado de Didier Drogba, da Costa da Marfim.
(in Expresso)May 20, 2010
ainda isto?!
- E a sua máquina é branca, preta, cinzenta?...
- É vermelha.
- Ah... Encarnada.
- É vermelha.
May 19, 2010
o trigo e o joio ou apenas uma feliz coincidência?
Quase não é preciso dizer que funciona num prédio inenarrável, construído para ser habitado, labiríntico e sem elevador, mas, naquele momento inicial, sentimo-nos todos tão do Norte da Europa que imagino que até os mais sisudos e refilões fiquem com a mão mais leve e a língua menos afiada.
May 12, 2010
é só para quem pode
May 11, 2010
a pessoa depois não sabe como se recompor
eufemismos religiosos, 3
(da reportagem TVI)
Post atenta e gostosamente ilustrado pelo Mestre João Lisboa
eufemismos religiosos, 2
(da reportagem SIC)
Post atenta e gostosamente ilustrado pelo Mestre João Lisboa
eufemismos religiosos, 1
(da reportagem RTP)
Post atenta e gostosamente ilustrado pelo Mestre João Lisboa























