March 01, 2006

Porque nos despedimos sempre de algo

Adeus

Já gastámos as palavras pela rua, meu amor,
e o que nos ficou não chega
para afastar o frio de quatro paredes.
Gastámos tudo menos o silêncio.
Gastámos os olhos com o sal das lágrimas,
gastámos as mãos à força de as apertarmos,
gastámos o relógio e as pedras das esquinas
em esperas inúteis.

Meto as mãos nas algibeiras e não encontro nada.
Antigamente tínhamos tanto para dar um ao outro;
era como se todas as coisas fossem minhas:
quanto mais te dava mais tinha para te dar.
Às vezes tu dizias: os teus olhos são peixes verdes.
E eu acreditava.
Acreditava,
porque ao teu lado
todas as coisas eram possíveis.

Mas isso era no tempo dos segredos,
era no tempo em que o teu corpo era um aquário,
era no tempo em que os meus olhos
eram realmente peixes verdes.
Hoje são apenas os meus olhos.
É pouco mas é verdade,
uns olhos como todos os outros.

Já gastámos as palavras.
Quando agora digo: meu amor,
já não se passa absolutamente nada.
E no entanto, antes das palavras gastas,
tenho a certezade que todas as coisas estremeciam
só de murmurar o teu nome
no silêncio do meu coração.

Não temos já nada para dar.
Dentro de ti
não há nada que me peça água.
O passado é inútil como um trapo.
E já te disse: as palavras estão gastas.

Adeus.

Eugénio de Andrade

7 comments:

margem said...

outro dos meus poemas de eleição :)

menina-alice said...

Sei-o de cor há muitos anos... É um adeus tão sem remédio, não é?

margem said...

é. o desencanto absoluto. acabou.

e tem versos tão marcantes...

por outro lado, é curioso como também não consigo deixar de o ver como um poema de amor. não só pelas emoções ou situações que a vivência amorosa pode contemplar (a dor, a desilusão, o desencanto, a separação,...);
mas, principalmente, pela antítese implícita no poema: à medida que vamos lendo o que já não existe, vamo-nos dando conta do que existia, do que era o amor, ou a paixão -

Dr. Scepticu said...

Não percebi, margem.

margem said...

eu sei, scepticu

menina-alice said...

Sabes que hesitei a postar este poema, margem. Preocupo-me sempre com os sentimentos do scepticu...

Rocha said...

eu já me senti assim... e quando me sentia assim, ria-me do que me lembrava ao mesmo tempo que me apetecia chorar