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November 24, 2010

já ninguém sabe da chave do matadouro

No que à greve diz respeito, tenho vivido como o que suponho perfazer uma fatia generosa dos católicos: sou grevista não-praticante. E o que faz uma grevista não-praticante? Basicamente não faz nada, porque trabalha e porque pertence a um tipo de trabalhador que, se não trabalhar um dia, nada traz de mau ao mundo, uma peça da engrenagem, mas das pequeninas, daquelas muito fininhas que funcionam em conjunto com outras, importantes para que o sistema (teoricamente) funcione perfeitamente, mas não para que se mantenha em funcionamento. Num dia, parar ou ficar, vai dar ao mesmo. Não sou causa de paragem de cidades, portos, hospitais ou fábricas. Não lido com muitas pendências inadiáveis ou danosas quebras de produção. Sou quase tão insignificante como a maioria de nós. Mesmo considerando o(s) conjunto(s) a que pertenço.

Mas hoje, pela primeira vez, fiz greve. Não a fiz porque, a partir de Janeiro, me vão ficar com mais de um dia de vencimento. Nem para aproveitar e dar a ver ao chefe ver o que é bom para a tosse. Fi-la porque, desde há uns anos e em crescendo, na minha rotina laboral especialmente, e nas notícias do país em geral, venho notando o esforço que quem se deixa nomear para mandar, faz para não assumir as responsabilidades que são, indubitavelmente inerentes aos cargos que aceitaram. As normas, as regras e as leis, cada vez mais ininteligíveis, absurdamente longas e complexas, são o ponto de apoio de uma cultura geral de desresponsabilização e, como os exemplos vêm de cima, as chefias e dirigentes da administração pública seguem o air du temps, marcado pelo passo das figuras do Estado e do Governo, que atiram culpas para A Comunidade, para A Crise, para Os Mercados, para Os Especuladores, para A Alemanha, para A Grécia, para A Irlanda. Para O Que Calhar e nos faça esquecer actos e omissões.

Como um Estado violento que, por exemplo, professe e pratique a pena de morte, um Estado esbanjador gera cidadãos esbanjadores, um Estado que não assume os seus erros gera cidadãos irresponsáveis, um Estado que se deixa à mercê dos mais fortes com a justificação de ser tíbio, representa um país de cidadãos frouxos, sempre na disposição de terem quem cuide deles e de serem salvos à última por um qualquer super-herói ou acto divino.

Foi deste último tipo que achei que tinha de me afastar, até porque acho que tenho, mais ou menos (in)conscientemente, pertencido a esse rebanho de olhinhos arregalados, à porta do matadouro. Não que eu acredite que ter feito greve me afaste da porta do matadouro. A porta do matadouro já ficou lá para trás e a diferença que se faz ao dizer NÃO é, na prática, nenhuma. Porque tudo se passa para além do meu controlo, para além do nosso controlo e, acredito cada vez mais, do controlo seja de quem for. Já ninguém sabe da chave do matadouro.

Fazer greve hoje em dia é muito na base do not going down without a fight. Uma espécie de "A união faz a nega". Foi assim a minha.

May 20, 2010

ainda isto?!

- Boa tarde, preciso daquela pecinha que apoio a pecinha onde se apoia a chávena, por favor. A minha máquina é como aquela ali... (aponto graciosamente, porque apontar é feio)
- E a sua máquina é branca, preta, cinzenta?...
- É vermelha.
- Ah... Encarnada.
- É vermelha.

May 04, 2010

William tell (s), 57

[durante uma birra pré-adolescente...]

W - Morituri te salutant!
Sua Mãe (uma santa!) - Se é para fazeres bem a birra, diz-se: Ave César! Morituri te salutant!
W - Pois, mas tu não és o César. O César é o Pai. Tu és o César little helper.

[... e recolheu aos seus aposentos]

February 12, 2010

e se eu ainda fosse advogada

Acabava os meus requerimentos de providência cautelar com:

Mais se requer ao Tribunal seja à presente dado o mesmo tratamento que à diligência interposta contra o jornal Sol.

November 29, 2009

professora Amélia - a vingança (post um tanto ressabiado)

Por ter crescido numa pequena localidade, que não era carne nem peixe - chamavam-lhe, nesses idos de 80, Centro Urbano -, acabei, eu e os da minha criação, por não ter acesso a tudo o que nos devia acontecer. Por exemplo, só tive Educação Física do 1.º e no 2.º ano do Ciclo Preparatório e no 8.º ano do Secundário. As aulas do 8.º ano até eram giras, porque aconteciam num pavilhão ainda distante da escola e o caminho de ida-e-volta era sempre preenchido por aquelas parvoíces saltitantes que um bom grupo de adolescentes com rédea mais-ou-menos solta espalha à sua volta. A professora era um ser anódino que só recordo ser baixo e magro.

Já no Ciclo, no 2.º ano, a conversa era outra. Tínhamos sempre aulas no ginásio da escola, que era o ginásio onde eu treinava judo também, no final de algumas tardes da semana. Que eu me lembre, com excepção de mim, todas as outras meninas da turma, em vez do judo, tinham ginástica com a professora de Educação Física, a Professora Amélia. E a Professora Amélia fazia-me a vida negra porque eu, para além de nunca me ter achado particularmente dotada para aquelas mariquices das cambalhotas e dos pinos e das pontes, não compactuava com os assombros de graciosidade e cadência das outras discípulas. Durante anos, sempre que dava uma cambalhota, lá ouvia a malévola Professora Amélia a dizer que eu parecia um saco de batatas; até hoje, nunca mais tentei um pino; as pontes, aprendi-as há um par de anos, quando fiz yoga , porque ela nem me deixava tentar em condições (na altura, agradeci de cada vez que o fez).

Passados muitos anos e, se bem que não cisne, mas para trás deixado o patinho feio, lembro-me sempre com um sorriso da Professora Amélia, quando, no ginásio, me elogiam o rigor nos exercícios e a pulsão enérgica do treino.

Freud devia ter pensado na influência maligna que podem ter as professoras velhacas de Educação Física na auto-estima das marias-rapaz e a Professora Amélia devia um dia, por acaso, ler este post e reformar-se ligeiramente deprimida.

October 12, 2009

mais fantasmas

Se hoje aqui publicasse uma foto, seria esta. Não a consigo passar para aqui, mas serviria para ilustrar um daqueles momentos em que, quase parados, controlamos a ansiedade com consciência exclusivamente dedicada, quase vendo o ar que nos rodeia, fazendo de conta que não nos importamos com o bater ensurdecedor do tic-tac do ponteiro dos segundos. Falo de pedaços de espaço espesso, que mantemos suspensos para a eternidade, alentecendo os movimentos do corpo, fingindo que nem reparamos que o tempo nunca mais passa. Lembra-me o corredor da casa dos meu avós, em Viseu, comprido e escuro, com o chão daquela madeira de passos-eco, ladeado por uma assustadora arrecadação, onde se escondiam aflições indescritíveis (esconderão ainda?) e com apenas um interruptor numa das extremidades. Nesses dias, a menos que fosse responder a um pedido urgente, percorria-o sempre o mais devagar possível, convicta da presença mal-intencionada de vilões transparentes nas minhas costas, que só não me capturavam logo porque se divertiam a fazer-me morrer de vontade de correr até à luz morna da sala do fundo.

quanto tempo duram os fantasmas?

Será que já existem pessoas com coragem para baptizarem os filhos com o nome de Salazar?

August 01, 2009

caminhar - dia 5

Palavras do dia

Sul + Pinheiros

Banda Sonora

In a Doghouse, Throwing Muses

Distância

3,5 km

July 29, 2009

ainda a pagar por 1640

"Y sin embargo, se mueve". Estas palabras las diría como si fuera un susurro casi inaudible Galileo Galilei al terminar la lectura de la abjuración a que fue forzado por los inquisidores generales de la Iglesia Católica el 22 de Junio de 1633. Se trataba, como se sabe, de obligarlo a desmentir, condenar y repudiar públicamente lo que había sido y seguía siendo su profunda convicción, es decir, la verdad científica del sistema copernicano, según el cual es la Tierra la que gira alrededor del Sol y no el Sol alrededor de la Tierra. El estudio del texto de la abjuración de Galileo debería estudiarse con conveniente atención en todos los establecimientos de enseñanza del planeta, fuese cual fuese la religión dominante, no tanto para confirmar lo que hoy es una evidencia para todo el mundo, que el Sol está parado y la Tierra se mueve a su alredor, sino como manera de prevenir la formación de supersticiones, lavados de cerebro, ideas hechas y otros atentados contra la inteligencia y el sentido común.

No es, pese a la introducción, Galileo el objeto primero de este texto, sino algo más próximo en el tiempo y en el espacio. Me refiero al Barómetro Hispano-Luso del Centro de Análisis Social de la Universidad de Salamanca, publicado hoy, sobre las eventuales posibilidades de creación de una unión entre los dos países de la Península Ibérica de cara a la formación de una Federación hispano-portuguesa.

Los lectores que acompañan regularmente éste y otros comentarios míos recordarán la polémica, adornada con unos cuantos insultos elegidos y unas cuantas acusaciones de traición a la patria, que mi pronóstico de una unión de ese tipo suscitó hace relativamente poco tiempo. Pues bien, de acuerdo con el sondeo de la Universidad de Salamanca, 39,9% de los portugueses y 30,3% de los españoles apoyarían esa unión. Los porcentajes muestran un sensible avance, tanto en un país como en el otro, sobre los cálculos realizados en aquel momento. Los que rechazan la idea constituyen poco más del 30% de las personas consultadas, es decir, 260 de los 876 ciudadanos entrevistados durante los meses de abril y mayo de este año.

Al contrario de lo que generalmente se dice, el futuro ya está escrito, lo que ocurre es que nosotros no tenemos todavía la ciencia necesaria para leerlo. Las protestas de hoy pueden convertirse en los acuerdos de mañana, y, por supuesto, también podría suceder lo contrario, aunque una cosa es cierta y la frase de Galileo tiene aquí perfecto encaje. Sí, Iberia. E pur si muove.

José Saramago, El País

(bold meu)

(ver também no Jornal de Negócios e no Público espanhol)

A questão da bandeira depois vemos com calma (e algum sentido estético), sim camarada?

March 09, 2009

deixar de ser chefe

Só tem benefícios.

Um dos grandes é poder ir para a formação, de férias, de folga durante a semana, de assistência à família, de descanso compensatório, enfim, não estar lá, e não passar a vida a atender chamadas, a receber e mandar SMS, a passar os tempos inúteis a ver se está tudo bem.

Diz o Ian Fleming que nunca devemos dizer nunca, mas eu creio que é altamente improvável eu não ter aprendido com o primeiro erro. Posso afirmar, com alguma certeza, que nunca mais me apanham distraída.

Até vou beber a isso.

March 04, 2009

pois... história




You Communicate Honestly



You don't mince words. You are to the point and all about the facts.

However, you are charming enough to tell people the truth yet still not offend them.



It's likely that you have a hilarious, no holds barred sense of humor. And you sure tell an entertaining story!

You're also quite open. People can ask you anything, and you don't shy away from controversial conversation topics.

February 27, 2009

head toon of the day



Absolute Beginners, David Bowie

(dos idos de '86 para o final de Fevereiro de '09, pela mão só aparentemente improvável do Nandz)

February 10, 2009

jamais deixar de fazer o post anual das amendoeiras em flor

E a tal preguiça modorrosa desta chuvinha chata que não passa (e do resto dos aieuaieuaieu que ficaram no post anterior), também vem fazendo adiar o post da Teia sobre o sazonal ressurgimento do florir das amendoeiras. Já dei bem com umas seis, em Monsanto, todas tímidas e a despropósito, no meio de húmidas manhãs que lhes não deixam resplandecer o branco ou arriscar-lhes uma foto, nem que seja de telemóvel. Parece que acordaram a meio da noite e andam descalças e estremunhadas pela casa.

Isto também a propósito de azedas e dos National.


January 25, 2009

divisor e dividendo

A minha infância - vá, sejamos sinceros, parte da minha adolescência também -, passou-se em angústias por causa das contas de dividir com dois ou mais algarismos no divisor e - pavor limite - com vírgulas. Ao Calé, meu venerando explicador das matemáticas, imaginava-o a disfarçar desalentos e frustrações para não me desmotivar. Passados alguns anos comecei a crer que o pior tinha passado e que a vida com as máquinas de calcular era a vida real. Parte de mim ponderou receios aquando da maternidade, mas, a crença no princípio supremo da divisão de tarefas, fez-me deitar para trás das costas a ansiedade. A outra parte de mim - a que intui e se move em presciências e outros esoterismos - sabia que um dia, sem ajudas nenhumas, o puto havia de perguntar e eu havia de ter de me desenrascar. Foi hoje e afinal, a coisa fez-se. Pelo menos com dois algarismos, está controlado. Venham as vírgulas, agora.

December 27, 2008

partes de hinos

Não me acontece muito estar em silêncio. Calada, sim; em silêncio, não. O tempo parece sobrante e gigante se estiver despreenchido de música. Ganha formas fofas a amplas como os meus sonhos de crescimento, sempre a transbordar de uma matéria surda a fazer lembrar marshmallows. Quando tinha esses sonhos, os marshmallows não andavam por aí a anunciar-se nas prateleiras dos caprichos de final de compras, ao lado das caixas dos supermercados, apareciam num ou noutro filme, espetados em paus ou ramos de árvores para serem derretidos em fogueiras de adolescentes americanos. Pode imaginar-se o desconforto que me traziam aqueles invasores da bem-aventurança, formando constantes labirintos moles e impedimentos frouxos, porém intransponíveis. Suponho que nunca me atrevi a experimentar - para além da evidente aparência de esponja indigerível - por temer aquela sensação de vertigem que me assaltava nessas noites de tirocínio de ser crescida. Entre mim e o espaço sem fim que não é ocupado pela música, vão-se inflacionando marshmallows silentes que me obrigam a levantar, a escolher, a pôr a tocar. O sonho comanda a vida, fá-la remota.




(obrigada, oh pais natais)

December 07, 2008

há 9 anos, a esta hora, estava a tomar um duche muito zen, mas era terça-feira

Os Domingos o que têm é o espaço. O espaço que sobra do que deixamos da parte desocupada, a que não tem prédios e a dos vazios com ervas erradas e sem sentido por entre os prédios. Como se o espaço que ocupamos na rua fosse o da folha em branco que tanto angustia alguns escritores, aqueles que, como todos nós, não gostam de trabalhar, arranjaram uma boa maneira de o fazer, mas vivem de consciência pesada por terem a vida boa. Ao Domingo, sobretudo se for cedo, acordo e vou logo à janela certificar-me que não vejo lá nada, nem pessoas, nem carros. Se houver chuva tanto melhor, que as gentes ainda se cortam mais e prolongam-se nos aconchegos. Aguço os ouvidos para me deleitar com a certeza de os vizinhos ainda não fazerem barulhos e só depois volto a dormir, escolhendo acreditar que daqui a oito dias volto a receber o beneplácito.


Que seria deste post sem o gerúndio?

October 17, 2008

o meu querido papá e a minha querida mamã


Fazem hoje muiiiiiitos anos de casados. Há estudos científicos que afirmam que nós somos mais saudáveis se os nossos papás viverem juntos para sempre. Mesmo que nos pareça esotérico, vive-se bem com estas coincidências quando elas nos beneficiam.


PARABÉNS