June 25, 2007

mesmo ao lado da mesa-de-cabeceira

Por isso bastou que começasse ontem a ler o Nave-Mundo, do Brian Aldiss (no original, Non-Stop) - que comprei na feira do livro de há dois anos, a conselho do Jorge -, para imediatamente ter um pesadelo com barcos, com um barco. Lembro-me de ter pesadelos com barcos desde muito criança. Os corredores estreitos, as portas demasiado pesadas, as janelas pequenas e difíceis de abrir, as escadas íngremes, o cheiro a óleo, as vigias, a falta de equlíbrio... tudo com ar de nos querer fazer perder e não deixar sair mais dali, senão para as profundezas escuras do oceano. Presságios claustrofóbicos e contraditórios, porque o que faria sentido era respirar a liberdade mais profundamente quando se está exclusivamente perante oceano e céu. Mas os pesadelos não são feitos dessa paz e só são coerentes com o que nossos receios têm de mais irracional.

Por conseguinte, sonhar com barcos já seria suficientemente mau, só que, nesses sonhos, acontece sempre algo muito pior que o próprio barco, não é meramente uma questão de atmosfera opressiva ou fetiche fóbico. Algo que parece existir ou acontecer apenas porque os barcos são meios ominosos, quase como se pudesse desvanecer tudo se o sonho - de repente e inadvertidamente, como acontece em todos os sonhos - passasse a acontecer num comboio.

No de hoje, alguém tinha raptado o meu filho e eu, por um lado, narradora omnisciente, via-o amordaçado e de mãos e pés atados num sítio escuro, apertado e húmido. Como personagem, ignorava por completo onde estava, sequer se estaria ainda no barco. O barco - enorme, com ferrugem a aparecer em algumas junções, uma espécie de ferry-boat pesado a fazer lembrar os tempos da Cortina de Ferro - estava umas vezes em alto-mar e outras perto de uma doca sinistra. A polícia procurava com cães e altifalantes, alternado entre um grande corropio e uma calma desesperante. Acabei por o encontrar eu: tinha estado aquela eternidade toda a espreitar os aparelhos dourados e as luzinhas cintilantes no isolamento confortável daquela casinha altaneira onde o comandante mora.

4 comments:

N. said...

ora bem, resolveste-o. :)

João Lisboa said...

O chamado Maddie-syndrome em versão trágico-marítima.

Tens de deixar de ver telejornais.

maria m. said...

... deixar de ver telejornais, ler livros e ver filmes, principalmente, sobre barcos...
mas diz lá, alice, assustador, mas grande sonho!

eu nunca me lembro de tanto pormenor, princípio,meio e fim, tudo,...

menina-alice said...

Eu lembro-me de vários pormenores quando me lembro do sonho, maria. Neste caso até cheguei a acordar no meio da aflição e acho que voltei a adormecer mesmo para resolver o sonho, como diz a N..

Eu tinha de dar o meu toquezinho épico à coisa. :D:D:D