January 24, 2008

o corpo dela era todo errado

Uma mulher senta-se no escuro de uma sala de cinema e pensa: não estou morta. O escuro de uma sala de cinema adensa as massas corpóreas, atribui-lhes uma espessura irrefutável. Sento-me no cinema com a minha solidão ao lado. A fatalidade da escuridão é esta: não esconde, antes exibe a solidão, e esta é pegajosa e espessa e dura e está colada à pele. E eu, eu estou sentada em cima da minha solidão, a asfixiá-la no escuro, às escondidas. Mas estou imóvel. No meu corpo só os meus fluidos se movem. Fazem movimentos circulares de mim para fora, saem de mim os meus fluidos. Ninguém quer estar dentro do meu corpo. Eu compreendo isso. Um homem não tem fluidos autónomos, é ele quem os expulsa. São governáveis como todas as coisas dos homens. Uma mulher que tem a libido de um homem é uma mulher perigosa: quando come a carne alheia consome-se a si própria em proporções idênticas. Às vezes uma mulher vem-se e chora. O corpo explode duas vezes. O corpo de uma mulher está sempre pronto a estalar e a rachar de uma vez e uma mulher às vezes vem-se e não aguenta e chora e não percebe porque chora, ela não queria chorar, queria rir e dizer palavrões. Às vezes uma mulher vem-se com tanta intensidade que no fim não fica nada. E então uma mulher está sentada com a sua solidão e os seus fluidos e o seu corpo impraticável e não está morta, mas está sentada no escuro com um corpo que expele como quem expulsa e lembra: estás sentada no escuro com a tua solidão irrespirável e quando saíres vai continuar escuro lá fora.


obrigada, limão. de um dos meus filmes preferidos. reler-te muitas vezes (aqui também).


é possível ter saudades de quem nunca se viu?

4 comments:

menina limão said...

primeiro, o silêncio de uma respiração suspensa. não estava à espera de me ler por aqui ao cair na teia às 3h30, mesmo antes de me deitar.

acho que percebeste que apenas pus o link para o post do Pedro para que se percebesse onde tinha ido buscar o título, porque de resto não há qualquer relação entre os dois posts. como dizia, acho que percebeste, mas ainda assim preferi explicá-lo.

(é também um dos meus filmes preferidos.)

e depois, muito me comove (a sério) ler essa pergunta que um dia te fiz.

obrigada.

menina-alice said...

Percebi, mas soube-me bem a associação de ideias. São relações causa-efeito de quem lê com o que tem dentro. Tu partiste do título e eu regressei ao filme (que ainda não me abandonou).

O teu texto é imenso e tinha de o pendurar na minha casa. A frase vamos usá-la enquanto não tivermos melhor. ;)

menina limão said...

"A frase vamos usá-la enquanto não tivermos melhor." - pois. ;)

margarete said...

é mesmo de re-re-ler