May 12, 2008

o muito aguardado texto da Lia e as fotos da Rita Carmo

A certa altura do concerto de ontem à noite na Aula Magna, o primeiro dos National em Portugal fora de contexto festivaleiro, Matt Berninger comentou o «semblante» da sala que recebia a banda. «Parece que estou na ONU», gracejou, no seu jeito vagamente deslocado e apologético, de quem ri de uma piada sussurrada ao ouvido. «Sinto-me o Colin Powell», reforçou mais tarde, ainda sobre a «cara» pouco rock da Aula Magna. «Se fosses o Colin Powell, punha-te daqui para fora», respondeu-lhe o violinista e teclista Padma Newsome, uma importante peça de estúdio dos National e ainda mais essencial elemento de palco, como ontem se pôde comprovar.

A Aula Magna pode, efectivamente, não parecer o sítio mais «cool» do mundo aos olhos de um forasteiro, mas foi um cenário à altura para o aguardadíssimo concerto dos National, esgotado há vários meses (com as implicações «candongueiras» daí provenientes). Se a solenidade da sala favoreceu os momentos de intimismo e calmaria, como «Daughters of the Soho Riots», «Gospel» ou «Wasp Nest», as maiores explosões de energia rock – e não foram poucas – não encontraram entraves de maior na aura de conforto da Aula Magna. Certamente que num espaço sem cadeiras a celebração e a catarse a que a música dos National (também) convida ter-se-iam materializado de outra forma, mas não foram os cadeirões das doutorais a impedir Matt Berninger de, «sugado» pelos fãs, irromper plateia adentro durante o inevitável «Mr. November».







A noite começou com «Brainy», do mais recente Boxer , e «Secret Meeting» de Alligator, o disco que, faz agora três anos, apaixonou meio mundo indie. Desde logo, a banda parecia apostada em guardar para o final de cada tema a tensão que se vai acumulando, por vezes de forma quase imperceptível, desde os versos e acordes iniciais (reconhecidos quase sempre à primeira por uma plateia ansiosa por entrar no jogo). É então que explodem as guitarras dos irmãos Aaron e Bryce, assim como o violino de Padma Newsome, por vezes doce e melancólico, outras esgrimido como se de uma guitarra eléctrica se tratasse.

«Mistaken For Strangers», o segundo single de Boxer, acabou com as reservas de muitos dos espectadores – toda a primeira fila do anfiteatro se ergueu para celebrar a chegada do subterrâneo «hit» - e daria lugar a «Baby We’ll Be Fine», a desarmante canção de Alligator , cujo refrão-forca («I’m so sorry for everything») se escutou em coro na Aula Magna. Matt Berninger, que quanto mais à vontade vai ficando mais trôpego se mostra, aproveitou então para confessar o quão «confortável» os National se sentem em Portugal desde a primeira visita ao nosso país (no Festival Paredes de Coura, em 2005). «Noutros sítios sentimos que as pessoas nos estão ali a julgar, mas aqui fomos sempre muito bem recebidos», afirmou.





Dir-se-á que qualquer banda bebe do seu público, e vice-versa, mas quando falamos de uma banda profundamente emocional – e algo volátil – como os National e de uma plateia sedenta de interactividade como a portuguesa, esta dinâmica torna-se mais central ao espectáculo.

Pequenos mimos como os de Berninger ajudaram então o concerto a crescer de entusiasmo, de parte a parte: «Slow Show», com melódica e tudo, contou com a ajuda do povo na recta final da letra (enxertada a uma canção do primeiro álbum da banda, «29 Years»), ao passo que a fabulosa «Squalor Victoria», que ao vivo mede mais três metros do que em disco, deu a mostrar os primeiros desvarios do vocalista, agarrado ao microfone de forma obsessiva e às voltas com deixas como «this isn’t working, you, my middlebrow fuck-up».




Naquele que foi o primeiro concerto da nova digressão da banda, os seis músicos demoravam, por vezes, algum tempo a decidir qual a canção que se seguiria no alinhamento. Poucas teriam aproveitado melhor a energia psicopata de «Squalor Victoria» do que «Abel», um dos momentos mais aguardados de qualquer concerto dos National, sacado ao indispensável Alligator , que ontem resultou às mil maravilhas.

Do grito de «My mind’s not right!» os National e seus acólitos passaram, com uma perna às costas, para a sequência agridoce, e quase acústica, de «Wasp Nest», «Racing Like A Pro» e «Ada», sorvidas com devoção (e algumas palminhas) por uma Aula Magna claramente maravilhada. Por esta altura, tornava-se evidente que esta era uma banda em pleno estado de graça – e em óptima forma – a tocar no momento certo para as pessoas certas. O local deixava de ter importância e «Apartment Story», falso peso leve de Boxer , desabrochou em palco e nas gargantas dos presentes, tornando-se um dos momentos mais inesquecíveis da noite.

«Daughters of the Soho Riots», com as palavras de Berninger a ecoarem gota a gota nas paredes da Aula Magna e a bateria em modo «batida cardíaca», teve o impacto emocional esperado, mas foi «Fake Empire», do mais recente Boxer , a arrasar os corações dos mais afectos à causa National, com a sua entrada em pezinhos de lã e a derradeira explosão, mais uma, de guitarras, bateria e violino desgovernados, qual cauda de cometa em forma de canção. Exemplar.




«Start A War» marcou a primeira despedida da banda, que voltaria para um só encore onde couberam as belíssimas «Green Gloves», «Gospel» e «About Today». Mas a imagem que mais espectadores guardarão na memória – quer na mental, quer na dos telemóveis e das máquinas fotográficas – será a de Berninger a trepar doutorais fora, preso pelo fio do microfone, amparado não pelas cheerleaders, como reza a letra da canção, mas pelos braços atentos e maravilhados dos fãs. Atrás dele, toda uma Aula Magna em pé e de braços no ar, subscrevendo a plenos pulmões a insondável jura de «I won't fuck us over / I'm Mr. November!».

Parece mal não terem tocado «All The Wine» ou «Lit Up»? Sim. Mas aquele «Mr. November», cambaleante, furioso e excessivo, tudo compensou e foi o espelho mais lisonjeiro de um espectáculo para mais tarde recordar.



ALINHAMENTO
Brainy
Secret Meeting
Mistaken For Strangers
Baby We'll Be Fine
Slow Show
Squalor Victoria
Abel
Wasp Nest
Racing Like A Pro
Ada
Apartment Story
Soho Riots
Fake Empire
Start A War

ENCORE
Green Gloves
Mr. November
Gospel
About Today

Texto de Lia Pereira
Fotos de: Espanta Espíritos




da Blitz


Nota mete-nojo: eu sou amiga da Lia! :P

7 comments:

dolphin.s said...

tão fona dessa gaja que consegue escrever assim :DDDD

ex(?)-ícone indie said...

props prá lia. bastantes horas depois, é como se tivesse regressado à aula magna do meu contentamento.

João Lisboa said...

ALELUIA! ALELUIA! ALELUIA!

Baixai o Vosso Divino Olhar sobre nós, ínfimos rastejantes que tão pouco o merecemos mas que, neste oh quão vil universo, tanto o suplicamos!


ALELUIA! ALELUIA! ALELUIA!

alicinha said...

Props pá Lia! Alfacita, já podes ser ícone outra vez. Eu faço-me de forte, mas tu sabes que, para mim, és um modelo, tipo, a minha knight in shiny armour, mas em gaja indie.


ALELUIA, irmão!

ícone indie said...

opá, ó alice, agora fiquei com o beicinho a tremer e meio choramingas. e pensar que vou bazá-las e só te vejo daqui a 2 semanas...

lisabel said...

Oh Alicinha, eu assim fico sem jeito, encabulada mesmo... Mas obrigada por tudo : )

Anonymous said...

velo teisto lia é que velo mezmu munheto do bom

jb