September 28, 2008

o traço da Rosa

No multibanco do Millennium da Estrada de Benfica, o sol bate no ecrã e deixa-o preto como faz às PSP's da garotada. Só se interpusermos a carteira entre o sol e os códigos secretos, podemos operar o equipamento. Este tanto se não quisermos improvisar e acreditar no instinto e na sorte.

Eu estava nesse multibanco a tratar da Via Verde dos carros todos do serviço. Os outros não conseguem, não percebem como funciona. Nem querem perceber. Fazem bem. Agora sei que têm razão. Aliás, sempre soube que lhes havia de dar razão. Só nunca pensei que fosse antes dos 50 anos, mas a vida profissional tem destas precocidades.

Quando se faz a coisa da Via Verde - pelo menos neste caso, é assim -, tem de se estar sempre a iniciar e a concluir operações, a tirar e a voltar a introduzir o cartão, e eu suava as estopinhas, rezando a todos os santinhos que não viesse ninguém para trás de mim, porque teria de me retirar logo para o fim da fila e ia demorar muito mais tempo. Sou daquelas snobs tão tímidas que faço tudo para não interferir, não porque respeite o meu semelhante (semelhante?), mas porque não quero que o semelhante tenha motivos para me dirigir a palavra, sobretudo se puder sequer aventar-se que o faz com legitimidade.

O tal santo protector das pessoas que raciocinam e conseguem executar operações de grau 3 no multibanco estava atento ao meu esforço: eram umas 11 da manhã e os poucos semelhantes que chegavam, abasteciam-se de dinheiro ou serviços na caixa do lado. Eu digitava códigos, referências e autorizações num ritmo semi-profissional. O sol teimava em sobreaquecer-me a nuca e impedir-me o corpo de manter a temperatura que para ali levei. Passou a Rosa do ginásio. Tem quase 70 anos, ela, mas não me embaraçava dar-lhe (ou tirar-lhe) uns 10 ou 15 menos. O seu grisalho é de pura raça, branco e preto e traz sempre maquilhagem numa versão amenizada da que se deve ter habituado a usar nos anos 60, com o eyeliner a marcar o rosto. É bonita e tem um ar vagamente triste. Estranhámos as duas encontrar-nos ali, fora da parte de dia que partilhamos às vezes, e demorámos uns bons segundos a identificar o nosso contexto. Suspeito que a Rosa não sabe que quero ter uns 70 anos como os dela e que cobiço sempre a precisão do traço negro que lhe desenha as pálpebras.

7 comments:

João Lisboa said...

Olha que bonito post!

menina alice said...

Deixas-me toda ufana. Obrigada :)***

Estava com umas redundâncias e umas bengalas de cana. Alterei um bocadinho.

Que te fez o Google?

Mr. Steed said...

eu tb gostei, mas derivaste para a senhora-de-setenta-anos-que-parece-ter-menos-dez-ou-quinze e perdeu-se o final da história do multibanco.

Repara na diferença de públicos, o joão lisboa, pessoa sensível, fixou a atenção na senhora-de-setenta-anos-que-parece-ter-menos-dez-ou-quinze, eu, bruto e anti-social, que partilha do nojo de ser interpelado por um semelhante na fila do ATM (ui, ca fino, o gajo diz ATM!) só me interessei pela rapidez com que tratas da Via Verde.

yes, I'm a tough audience :)))

João Lisboa said...

"mas derivaste para a senhora-de-setenta-anos-que-parece-ter-menos-dez-ou-quinze e perdeu-se o final da história do multibanco"

Mas foi precisamente da deriva que eu gostei: a passagem, sem se dar por isso, de um cenário para uma personagem. Plano aberto para close-up.

João Lisboa said...

"Que te fez o Google?"

Nada. Mas eu sei mais que ele!

menina alice said...

Steed, a cena da Via Verde acaba como se esperava. Mission accomplished. Sem espinhas. Aquilo era simples. O mundo está cheio de preguiçosos e, volto a dizê-lo, bom para eles. Há sempre um(a) idiota disposto a apagar o fogo.

O post era para contar da Rosa. Os ATM são sempre pretextos. Assim se conservem, para nos manter longe da malta dos balcões.



tu não sabes mais que o Google...

N. said...

bonito, mesmo!