June 19, 2010

José Saramago (1922 - 2010)


Os ombros dos gigantes

Não é por ter morrido. Morrer, morremos todos. E no caso, nem foi um acontecimento inesperado. José Saramago tinha 87 anos ontem, quando morreu. Já tinha idade para morrer.

O mundo vai ficar um bocadinho mais apertado porque essa morte física nos assegura que não vai escrever mais, intervir mais, ensinar mais. É provável que ainda apareçam linhas e linhas de palavras inéditas dele. Mas ele, o Saramago, a sentar-se à secretária e a escrever, não vai acontecer. O nós com ele, a contemporaneidade dele connosco, cessou. A pertinência dessas letras vai passar a aferir-se pelo passado.

Quando morrem pessoas com este tamanho, desde que sou mãe, não consigo deixar de pensar que o meu filho vai viver num mundo sem elas, que só se ler ou procurar com muito afinco poderá crescer como eu cresci a lê-lo e a ouvi-lo, destemido e ponderado. Sério. Não vai ligar a televisão e deparar-se com declarações que ele fez nesse dia ou beber das suas palavras e silêncios numa entrevista que tivemos a sorte de apanhar. Não vai receber SMS da obsessiva Sandra a avisar que essas entrevistas estão no ar e correr para a televisão. Vai ter muitas outras coisas, mas vão faltar-lhe estas.

O primeiro livro que li do Saramago, há talvez uns quinze anos, foi o Memorial do Convento. A minha tenaz amiga Mafalda insistia que eu lesse e eu, eivada dos preconceitos que sempre afastarão tantos leitores da sua obra, resisti até mais não poder. Ela, a Mafalda, é das amigas mais casmurras que tenho perto (embora tenha mais, agora que penso nisso) e, como muitas outras vezes, venceu a peleia. Já lhe agradeci pessoalmente várias vezes, muitas outras depois, sozinha, pelo menos uma por cada livro de Saramago que li. Faltava deixar aqui registado: obrigada.

José Saramago morre no mesmo ano que JD Salinger. No meu mundo, já são dois bocadinhos menos. Menos quatro ombros.

Hermandad

Octavio Paz
Homenaje a Claudio Ptolomeo

Soy hombre: duro poco
Y es enorme la noche.
Pero miro hacia arriba:
Las estrellas escriben.
Sin entender compreendo:
También soy escritura
Y en este mismo instante
Alguien me deletrea.


A foto não sei quem a tirou, mas eu tirei-a daqui.


3 comments:

Pedro said...

As pessoas bonitas fazem sempre falta ao mundo dos vivos :*

F said...

Curiosamente o primeiro livro que li do Saramago também foi o Memorial do Convento. Gostei muito. E curiosamente, neste momento, encontro-me quase a terminar o The Catcher in the Rye.

maria manuel said...

também comecei pelo Memorial do Convento, depois li mais alguns poucos. não era meu escritor de eleição, mas reconheço-lhe todo o mérito e valor literário e cultural.

belos os versos de Octavio Paz!