April 20, 2006

A morte do Sr. Nicolau

Não sei quem era o Sr. Nicolau, não sei o que fazia quando acordava ou para adormecer, o que ainda queria que o tempo lhe desse, os dilemas que o atazanavam, se ainda amava, se estava doente, se se tinha apoucado com a idade ou se sofria. Hoje ele morreu.

Morreu às 14h30.

Eu cheguei ao hospital perto das 19h30, a hora a que começam a dar informações sobre os utentes que estão nas urgências. Prestam informações apenas durante uma hora. Se não informarem durante essa hora, começa a funcionar o expediente da cunha. Iniciam-se então, às 20h30, os subservientes preparativos e as ansiosas tentativas para ser agraciado com os favores de um qualquer funcionário que ainda se compadeça com a dor alheia.

Perto das 21h00, atinge-se a glória de poder mirar a magnanimidade da presença do médico que chefia a equipa de serviço. Apresenta-se de carranca fechada e ar contrariado, o que facilita o arrancar de quem depende das suas graças mais um ou outro esgar servil. Sim, sim, ele vai fazer o jeito, mas esperarão o tempo que o senhor doutor tiver que demorar.

Regressa cerca de 10 ou 15 minutos depois, já com um semblante mais solícito para chamar a filha e a neta do Sr. Nicolau e dizer-lhes que o Sr. Nicolau tinha morrido. Às 14h30. Sete horas antes. Sete horas de esperança, desesperança, paciência, impaciência, suspiros e memórias. Sete horas à espera. Sete horas depois.

1 comment:

margem said...

o estado, as suas instituições, e outras não estatais, não sei... parece haver uma espécie de caos generalizado, em que uns fanada fazem do que devem, outros pouco fazem ou fazem mal, outros fazem o melhor que podem, outros acima do que podem, sem pontes que os (nos) unam... podedria dizer dos clichés acyuais da crescente desumanização das sociedades modernas contemporãneas, aquelas coisas, não sei...

feeling of injustice, sadness -